Por Dr. Rubens Pontello Junior — Médico dermatologista em Londrina
CRM-PR 24.645 | RQE 2.050
PLLA e CaHA são duas siglas que aparecem com frequência quando o assunto é bioestimulador de colágeno. A primeira corresponde ao ácido poli-L-láctico, conhecido pelo nome comercial Sculptra®. A segunda, à hidroxiapatita de cálcio, conhecida pelo nome comercial Radiesse®. Ambos estimulam o organismo a produzir colágeno, mas são materiais distintos, que se comportam de maneiras diferentes no tecido.
Este artigo explica o que cada um é, como agem, o que a ciência mostra até aqui e por que a escolha entre eles não pode ser feita por comparação de rótulos.
Resposta direta
PLLA (ácido poli-L-láctico) e CaHA (hidroxiapatita de cálcio) são bioestimuladores de colágeno de composição diferente. O PLLA é um polímero sintético absorvível, cujo efeito se desenvolve de forma gradual ao longo de semanas a meses. A CaHA é formada por microesferas de mineral suspensas em um gel, que oferece algum volume já na aplicação, enquanto as microesferas estimulam a produção de colágeno. Os dois podem estimular colágeno, e nenhum é superior ao outro de forma universal: a indicação depende da avaliação individual de cada rosto.
Neste artigo
- O que são bioestimuladores de colágeno?
- O que é PLLA?
- O que é CaHA?
- PLLA e CaHA: quais são as principais diferenças?
- Para que esses materiais podem ser utilizados?
- Qual é melhor: PLLA ou CaHA?
- Quando aparecem os resultados e quanto tempo duram?
- Quais são os riscos e os cuidados?
- Perguntas frequentes
- A escolha começa pela avaliação
- Referências
O que são bioestimuladores de colágeno?
Bioestimuladores de colágeno são substâncias injetáveis que provocam uma resposta controlada do tecido, levando células chamadas fibroblastos a produzir colágeno novo ao longo do tempo.4 O objetivo é melhorar a sustentação e a qualidade da pele a partir de uma resposta do próprio organismo. Uma visão geral desse grupo de tratamentos está na página sobre bioestimuladores de colágeno.
É útil separar três ideias que costumam ser confundidas:
- Bioestimulação é o mecanismo: o estímulo à produção de colágeno, que acontece de forma progressiva.
- Preenchimento é a reposição de volume pelo próprio material injetado, perceptível logo após a aplicação.
- Resultado clínico é o que se observa no rosto, e depende do material, da região, da forma de uso e da resposta de cada pessoa.
Essas categorias não são estanques. Alguns materiais combinam efeito de volume imediato e bioestimulação, e a proporção entre eles muda conforme o produto e a forma de utilização.6 A diferença entre bioestimulador e preenchimento com ácido hialurônico, por isso, é de predominância, não de oposição absoluta.
O que é PLLA?
PLLA é a sigla de ácido poli-L-láctico, um polímero sintético, biocompatível e absorvível pelo organismo. O produto mais conhecido dessa categoria é o Sculptra®, mas o nome comercial não deve ser confundido com a substância: existem outras formulações à base de PLLA, e os dados de um produto não se transferem automaticamente para outro.
O PLLA é apresentado como pó, que precisa ser reconstituído com água estéril antes da aplicação.13 Logo após o procedimento, o volume percebido vem principalmente do líquido injetado, que é absorvido em poucos dias. O efeito que interessa ao tratamento se forma depois.4
Como o tecido responde ao PLLA
As micropartículas de PLLA desencadeiam uma reação inflamatória controlada, chamada reação de corpo estranho subclínica. Células de defesa envolvem as partículas e liberam sinais que ativam os fibroblastos, que passam a depositar colágeno, predominantemente do tipo I.4 Esse processo leva semanas a meses e é a razão pela qual o tratamento com PLLA costuma ser planejado em mais de uma sessão, com intervalos entre elas.11,13
O que é CaHA?
CaHA é a sigla de hidroxiapatita de cálcio, um mineral semelhante ao componente mineral dos ossos e dentes. No produto mais estudado, o Radiesse®, a CaHA está na forma de microesferas de 25 a 45 micrômetros, suspensas em um gel aquoso de carboximetilcelulose e glicerina.12,14
O gel ocupa espaço no momento da aplicação, o que gera um efeito de volume já perceptível. Com o tempo, o gel é absorvido e as microesferas funcionam como uma estrutura de apoio, em torno da qual os fibroblastos produzem colágeno.5 Em um estudo histológico com biópsias, a CaHA foi associada a aumento de colágeno e de fibras elásticas em comparação com um preenchedor de ácido hialurônico.5
A forma de utilização muda o comportamento
A CaHA pode ser usada em sua forma original, quando o objetivo inclui volume e contorno, ou diluída, quando a intenção é distribuir o material em uma área maior e priorizar o estímulo de colágeno na pele. Essa distinção vem principalmente de consensos de especialistas, que têm nível de evidência menor do que ensaios clínicos.6 A forma diluída tem dados controlados recentes em uma indicação específica, as rugas do colo.12
E os produtos híbridos?
Existem também produtos que combinam CaHA e ácido hialurônico na mesma seringa, como o HarmonyCa™. Eles não são equivalentes à CaHA isolada: reúnem o efeito de volume do ácido hialurônico ao estímulo da CaHA. Uma revisão sistemática sobre essas combinações encontrou resultados estéticos favoráveis e eventos adversos em geral leves, mas destacou a necessidade de estudos mais longos e de protocolos padronizados.9
PLLA e CaHA: quais são as principais diferenças?
A principal diferença está na composição e na forma como o efeito se distribui no tempo. Ambos estimulam colágeno, e em ambos o resultado final depende do protocolo. A tabela resume os mesmos critérios para os dois materiais.
| Critério | PLLA (ácido poli-L-láctico) | CaHA (hidroxiapatita de cálcio) |
|---|---|---|
| Composição | Micropartículas de polímero sintético absorvível, reconstituídas em água estéril antes do uso. | Microesferas de mineral (25 a 45 µm) em gel de carboximetilcelulose. |
| Comportamento inicial | O volume inicial vem do líquido e desaparece em poucos dias. | O gel oferece volume perceptível no momento da aplicação. |
| Desenvolvimento dos efeitos | Progressivo, por estímulo de colágeno ao longo de semanas a meses. | Volume inicial seguido de estímulo de colágeno em torno das microesferas, também progressivo. |
| Objetivos clínicos estudados | Perda de volume facial (incluindo lipoatrofia), sulcos e rugas faciais. | Sulcos e rugas faciais, lipoatrofia, dorso das mãos e, na forma diluída, rugas do colo. |
| Particularidades do planejamento | Costuma exigir mais de uma sessão, com intervalos; a reconstituição e a técnica influenciam a segurança. | Pode ser usada pura ou diluída, com objetivos diferentes; é visível em exames de imagem como tomografia. |
| Comparação direta | Os estudos disponíveis avaliaram cada material separadamente, com comparadores e protocolos diferentes. Isso não permite afirmar que um seja superior ao outro. | |
Fontes da tabela: referências 1 a 6, 11 a 14.
Para que esses materiais podem ser utilizados?
Na face, PLLA e CaHA foram estudados principalmente para recuperar volume perdido, suavizar sulcos e rugas e melhorar aspectos relacionados à firmeza e à qualidade da pele.1–3
- PLLA: uma revisão sistemática reuniu 11 ensaios clínicos randomizados, com cerca de 1.268 participantes, a maioria tratada para lipoatrofia facial e para sulcos nasogenianos. Os autores observaram melhora, mas classificaram a qualidade da evidência como baixa.2
- CaHA: uma revisão de 13 estudos controlados, com 1.171 participantes, encontrou melhora estética consistente na face e no dorso das mãos. A maior parte desses estudos não era randomizada nem cega.3
As indicações aprovadas variam entre países e entre produtos. Nos Estados Unidos, por exemplo, a FDA aprovou o Sculptra® para lipoatrofia facial associada ao HIV (2004), sulcos nasogenianos e outras rugas faciais (2009) e linhas finas da bochecha (2023).11 O Radiesse® foi aprovado para sulcos e rugas faciais moderados a graves e para lipoatrofia associada ao HIV (2006), para o dorso das mãos (2015) e, na forma diluída, para rugas do colo (2026).12 Usos fora dessas indicações existem na prática clínica, mas devem ser entendidos como tal.
O que esses materiais não resolvem
O envelhecimento do rosto envolve pele, gordura, ligamentos, músculos e ossos. Estimular colágeno atua sobre parte desse conjunto, não sobre todas as suas causas. Excesso de pele, flacidez acentuada ou perda de sustentação profunda podem exigir outras abordagens. O artigo sobre as causas da flacidez no rosto detalha essas estruturas e por que nenhum material resolve todas elas.
Qual é melhor: PLLA ou CaHA?
Não há um melhor em termos absolutos. Os estudos disponíveis não comparam os dois materiais frente a frente de forma robusta: cada um foi avaliado contra comparadores diferentes, como colágeno, ácido hialurônico ou ausência de tratamento.2,3 Uma revisão sistemática que analisou os dois concluiu que ambos são eficazes e seguros para a face, e que ainda é necessário padronizar técnicas e avaliar a segurança a longo prazo.1
A escolha, portanto, é clínica. Na avaliação, o dermatologista considera:
- a queixa principal: perda de volume, contorno, qualidade da pele ou uma combinação;
- a anatomia: estrutura óssea, distribuição de gordura e espessura dos tecidos;
- a região: cada área do rosto tem riscos e respostas próprios;
- tratamentos anteriores: produtos já aplicados e sua localização;
- condições de saúde: doenças, medicamentos em uso, alergias, gestação ou amamentação;
- expectativas: o tempo que a pessoa aceita esperar pelo resultado e o que é realista alcançar.
Em alguns casos, um dos materiais faz mais sentido; em outros, nenhum dos dois é a prioridade. A avaliação do envelhecimento facial vem antes da escolha do produto.
Quando aparecem os resultados e quanto tempo duram?
É preciso diferenciar o efeito inicial da mudança progressiva. Com PLLA, quase todo o resultado é progressivo, e a melhora costuma ser avaliada ao longo de meses.4 Com CaHA, parte do efeito é imediata, pelo volume do gel, e outra parte se desenvolve com o estímulo de colágeno.5
Sobre a duração, os números dependem do produto, da região, do protocolo e do tempo de acompanhamento de cada estudo:
- Em um estudo randomizado com PLLA para sulcos nasogenianos, a melhora avaliada pelos investigadores se manteve acima de 85% até 25 meses.7
- No estudo que levou à aprovação do Sculptra® para a bochecha, com até 4 sessões, 70,7% dos tratados responderam ao tratamento em 12 meses, contra 25,9% dos controles sem tratamento.11
- Em um estudo randomizado com CaHA, com duas sessões, 79% dos sulcos tratados ainda apresentavam melhora em 12 meses, contra 43% dos tratados com o ácido hialurônico usado como comparação.8
- Uma revisão sistemática descreveu efeitos de até 25 meses para PLLA e de 12 a 18 meses para CaHA nos estudos incluídos, avaliados separadamente.1
Esses dados descrevem grupos de pacientes em condições de estudo, não uma garantia individual. O número de sessões, o intervalo entre elas e a necessidade de manutenção são definidos caso a caso, e o próprio envelhecimento continua ao longo do tempo.
A diferença entre inchaço, resultado visível e permanência do produto, além dos critérios de manutenção, está detalhada no artigo quanto tempo dura a harmonização facial.
Quais são os riscos e os cuidados?
Os efeitos mais comuns dos dois materiais são locais e temporários: inchaço, vermelhidão, dor ou sensibilidade e hematomas no local da aplicação.2,3
Pápulas e nódulos
Com PLLA, pequenos nódulos sob a pele são o evento mais discutido. A frequência variou muito entre os estudos, chegando a 41% em um ensaio antigo, com protocolo diferente do atual, e foi baixa em estudos recentes.2,11 As instruções de uso do fabricante registram que eles podem surgir semanas ou meses depois da aplicação.13 Com CaHA, nódulos na face foram pouco frequentes nos estudos controlados.3 Nos lábios, a segurança da CaHA não foi estabelecida e há relatos de nódulos.14
Complicações vasculares
Qualquer material injetável pode, raramente, obstruir um vaso sanguíneo, com risco de necrose da pele e, em casos excepcionais, de perda da visão. Uma revisão de 511 casos de perda visual após preenchimentos, publicados ao longo de um século, identificou 13 casos associados à CaHA e 7 ao PLLA, entre outros materiais.10 Uma revisão sistemática registrou um caso grave de necrose por compressão com CaHA.1 Por isso, conhecimento de anatomia, técnica e acompanhamento médico são parte do tratamento.
Contraindicações e situações de cautela
As instruções de uso dos fabricantes listam, entre outras situações: alergia aos componentes, infecção ou inflamação ativa na região, histórico de queloides (no caso do PLLA) e distúrbios de coagulação (no caso da CaHA). A segurança não foi estabelecida na gestação e na amamentação, e há cautela em doenças autoimunes ou do tecido conjuntivo.13,14 A CaHA também aparece em exames de imagem, como tomografia, o que deve ser informado ao médico que solicitar o exame.14
Qualquer alteração depois do procedimento, como dor intensa, mudança de cor da pele ou alteração visual, deve ser comunicada imediatamente ao médico responsável.
Perguntas frequentes
PLLA e CaHA são a mesma coisa?
Não. Os dois são bioestimuladores de colágeno, mas o PLLA é um polímero sintético absorvível e a CaHA é um mineral em microesferas suspensas em gel. Eles se comportam de forma diferente no tecido e no tempo.
Bioestimulador é igual a preenchimento?
Não exatamente. O preenchimento repõe volume com o próprio material; o bioestimulador estimula o organismo a produzir colágeno. Alguns produtos, como a CaHA, fazem as duas coisas em proporções diferentes.
Sculptra e Radiesse são equivalentes?
Não. Sculptra® é um produto à base de PLLA e Radiesse®, à base de CaHA. Têm composição, comportamento e indicações aprovadas diferentes, e não há estudos robustos que os comparem frente a frente.
Podem ser usados em qualquer região?
Não. Cada produto tem regiões estudadas e regiões em que o uso não é recomendado, como os lábios no caso da CaHA. A indicação considera a anatomia e os riscos de cada área.
Uma sessão é suficiente?
Depende do material, da região e do objetivo. O PLLA costuma ser planejado em mais de uma sessão. Com CaHA, o número varia conforme o caso. O plano é definido na avaliação.
É possível associá-los a outros tratamentos?
Sim, quando a avaliação identifica mais de um componente no envelhecimento do rosto. Bioestimuladores podem fazer parte de um plano com outras abordagens, em sequência definida pelo médico.
Como saber qual faz sentido para mim?
Somente com avaliação presencial. O médico analisa queixa, anatomia, qualidade da pele, histórico de saúde, tratamentos anteriores e expectativas antes de indicar qualquer material, ou de indicar que nenhum deles é necessário.
A escolha começa pela avaliação
PLLA e CaHA são ferramentas diferentes, com evidências próprias e limites claros. Saber qual delas faz sentido, ou se alguma faz, depende do que mudou no rosto de cada pessoa. O Dr. Rubens Pontello Junior, médico dermatologista em Londrina, realiza essa avaliação em consulta.
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Conteúdo educativo. Não substitui consulta médica: a indicação de qualquer tratamento depende de avaliação individual. Sculptra® e Radiesse® são marcas registradas de seus respectivos fabricantes e foram citadas apenas como exemplos.
Referências
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- Galderma. Sculptra: Instructions for Use (Estados Unidos). 2023. galderma.com
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Sobre o autor
Dr. Rubens Pontello Junior
Médico dermatologista
CRM-PR 24.645 | RQE 2.050
Londrina — Paraná
Membro titular da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica (SBCD) e membro da American Academy of Dermatology (AAD). Sua prática integra dermatologia, cosmiatria, estudo do envelhecimento facial e qualidade da pele, com avaliação individual antes da escolha de qualquer procedimento.
Revisão médica: Dr. Rubens Pontello Junior
Última revisão: 6 de outubro de 2026
Declaração de interesses: o autor não possui vínculo com fabricantes dos produtos citados.
