Em poucas palavras
O melanoma é o câncer de pele que nasce dos melanócitos, as células que produzem o pigmento da pele. É bem menos frequente que os carcinomas, mas é o tipo com maior capacidade de se espalhar para outros órgãos. A maioria dos casos é diagnosticada quando o tumor ainda está restrito à pele, fase em que o tratamento costuma ser cirúrgico e o prognóstico é, em geral, favorável [2]. Quanto mais fino o melanoma no momento do diagnóstico, melhores tendem a ser os resultados [4]. Uma pinta nova não significa melanoma, mas lesões que mudam, que são diferentes das outras ou que crescem como um nódulo devem ser avaliadas por um dermatologista. O diagnóstico só é confirmado pela análise da lesão ao microscópio.
O que é melanoma
Melanoma é um tumor maligno originado dos melanócitos. Na grande maioria das vezes, surge na pele, mas também pode aparecer em mucosas e nos olhos; este artigo trata do melanoma cutâneo, o da pele.
O melanoma pode surgir em pele aparentemente normal ou a partir de uma pinta que já existia. Em uma metanálise de 38 estudos observacionais, 29,1% dos melanomas analisados estavam associados a uma pinta preexistente; nos demais casos (70,9%), não foi identificada pinta prévia [5]. Por isso, tanto o aparecimento de lesões novas quanto a mudança em pintas antigas merecem atenção.
Por que o melanoma exige atenção, mesmo sendo menos frequente
Para cada ano entre 2026 e 2028, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 9.360 casos novos de melanoma no Brasil; em 2024, foram registradas 2.031 mortes pela doença [1]. É um número muito menor que o dos carcinomas de pele, mas, segundo a diretriz europeia, o melanoma responde por cerca de 90% das mortes por câncer de pele, porque pode se disseminar pelos vasos linfáticos e sanguíneos [2].
A diretriz europeia informa que cerca de 90% dos melanomas são diagnosticados como tumores primários, sem sinais de metástase. O trecho da diretriz não identifica a população de origem dessa proporção, que por isso não deve ser lida como estimativa para o Brasil nem como valor universal. Nesse grupo, a mesma diretriz descreve sobrevida específica pela doença em dez anos entre 85% e 95% [2]. Esses números se referem a grupos de pacientes; a perspectiva de cada pessoa depende das características do seu tumor.
Quem tem mais risco
Segundo a diretriz europeia, o fator de risco mais importante é o número total de pintas no corpo, seguido da presença de pintas atípicas, maiores e de aspecto irregular [2]. Também aumentam o risco o tipo de pele, o dano solar acumulado e o histórico familiar de melanoma [2]. O INCA destaca ainda a exposição intensa ao sol, sobretudo na infância e na adolescência, o bronzeamento artificial, a pele e os olhos claros e o histórico pessoal de câncer de pele [1].
Ter um ou mais desses fatores não significa que a pessoa terá melanoma, assim como a ausência deles não elimina a possibilidade. Os fatores de risco ajudam o dermatologista a definir quem se beneficia de acompanhamento mais próximo. A visão geral sobre prevenção e fatores de risco do câncer de pele está no artigo sobre câncer de pele.
Como o melanoma pode se apresentar
O aspecto mais conhecido é o de uma lesão escura, assimétrica, com bordas irregulares, várias cores e que muda ao longo do tempo, características resumidas na regra ABCDE. Mas nem todo melanoma segue esse padrão, e algumas apresentações são mais difíceis de reconhecer [2]. Os sinais de alerta em pintas, a regra ABCDE e o sinal do patinho feio estão detalhados no artigo sobre pinta suspeita.

Melanoma nodular
Surge como um nódulo elevado, firme e muitas vezes simétrico, que pode ser escuro, azulado, avermelhado ou rosado e cresce em semanas ou poucos meses [6]. Como pode não ter bordas irregulares nem várias cores, costuma escapar dos critérios clássicos [2, 6]. Um nódulo novo que cresce rapidamente deve ser avaliado sem demora, mesmo que pareça regular.
Melanoma em palmas, plantas e unhas
O melanoma acral aparece nas palmas das mãos, nas plantas dos pés e embaixo das unhas, em áreas pouco expostas ao sol, e pode ocorrer em qualquer tom de pele [2]. Na unha, o sinal de atenção é uma faixa escura nova, que se alarga ou cuja pigmentação passa para a pele ao redor. Por ser confundido com manchas, calos ou traumas, pode ser diagnosticado mais tarde, e a diretriz europeia registra prognóstico menos favorável para esse subtipo em comparação com outros [2].
Melanoma pouco pigmentado
Alguns melanomas têm pouco ou nenhum pigmento e podem parecer uma lesão rosada, avermelhada ou da cor da pele [2]. Por não serem escuros, são facilmente confundidos com lesões benignas ou inflamatórias. Uma lesão rosada nova, que persiste e cresce, também merece avaliação.
Por que o ABCDE não basta para diagnosticar
A regra ABCDE é uma ferramenta de alerta, não um teste diagnóstico. Na maior parte das vezes, alterações como essas na pele não são causadas por câncer [1], e melanomas nodulares ou pouco pigmentados podem não preencher esses critérios [2, 6]. Por isso, a decisão de investigar uma lesão depende do exame dermatológico, da comparação com as demais pintas e, principalmente, da mudança ao longo do tempo.
Como é feito o diagnóstico
A investigação começa pelo exame da pele como um todo. A dermatoscopia, exame com aumento e iluminação especial, melhora a precisão do diagnóstico de melanoma quando usada em conjunto com a inspeção visual por profissionais treinados [3].
Quando há suspeita, a confirmação depende sempre do exame histopatológico, isto é, da análise do tecido ao microscópio [2]. A diretriz europeia recomenda que a lesão suspeita seja retirada por completo, com margens estreitas, para permitir o diagnóstico e a medição correta da espessura [7]. A forma de obtenção da amostra é definida pelo médico conforme o tamanho e a localização da lesão.

Espessura de Breslow: o que o laudo informa
Quando o diagnóstico é confirmado, o laudo do exame traz informações que orientam o tratamento. A principal é a espessura de Breslow: a profundidade do tumor, medida em milímetros no exame histopatológico, em geral a partir da camada granulosa da epiderme (ou da base da ulceração, quando presente) até a célula tumoral invasiva mais profunda [2, 4]. Em geral, quanto mais fino o melanoma, menor o risco de disseminação.
O laudo também informa se há ulceração, isto é, perda da camada superficial da pele sobre o tumor, que indica comportamento mais agressivo [4]. Pelo sistema de estadiamento da AJCC, os melanomas são classificados em T1 (até 1,0 mm), T2 (mais de 1,0 até 2,0 mm), T3 (mais de 2,0 até 4,0 mm) e T4 (mais de 4,0 mm), cada um subdividido conforme a presença de ulceração [4]. O melanoma in situ, restrito à camada mais superficial da pele, não tem invasão e corresponde ao estágio 0.

Estadiamento e prognóstico
O estadiamento resume a extensão da doença. De forma simplificada:
- Estágio 0: melanoma in situ, restrito à epiderme;
- Estágios I e II: tumor restrito à pele, classificado pela espessura e pela ulceração;
- Estágio III: comprometimento de linfonodos (gânglios) da região ou de pele próxima ao tumor;
- Estágio IV: metástase para órgãos distantes.
Para melanomas a partir de 1,0 mm de espessura, ou a partir de 0,8 mm com outros fatores de risco no laudo, a diretriz europeia recomenda oferecer a biópsia do linfonodo sentinela, que avalia o primeiro gânglio que drena a região do tumor [7]. Esse exame é importante para o estadiamento e para a decisão de tratamento; a própria diretriz ressalta que ainda não há benefício claro de sobrevida atribuído a ele [7].
A tabela abaixo mostra a sobrevida específica pelo melanoma por estágio patológico na base de dados internacional que embasou a 8ª edição do estadiamento da AJCC [4]:
| Estágio patológico (AJCC 8ª ed.) | Sobrevida específica em 5 anos | Sobrevida específica em 10 anos |
|---|---|---|
| I | 98% | 95% |
| II | 90% | 84% |
| III | 77% | 69% |
Observação: os dados vêm de mais de 46 mil pacientes com melanoma em estágios patológicos I a III, diagnosticados a partir de 1998 em 10 centros em diferentes países [4]. Sobrevida específica considera apenas mortes causadas pelo melanoma. Os números descrevem grupos, não o prognóstico de uma pessoa, e não representam resultados garantidos dos tratamentos atuais, que podem não estar refletidos nessa base histórica. O estágio IV não foi incluído nessa análise.
Tratamento em linhas gerais
As informações abaixo resumem as recomendações da diretriz europeia de 2024 e não substituem a avaliação individual [7]. As decisões em casos mais avançados são tomadas por equipe multidisciplinar, e nem todas as etapas são realizadas pelo mesmo profissional ou no mesmo serviço.
Melanoma localizado
O tratamento padrão é a ampliação cirúrgica da área onde estava o melanoma, com margens de segurança de 1 a 2 cm, definidas pela espessura do tumor; margens maiores que 2 cm não são recomendadas [7]. Conforme a espessura, pode ser indicada a biópsia do linfonodo sentinela. Em tumores de maior risco já operados, a partir do estágio IIB, pode ser proposto tratamento complementar (adjuvante) com imunoterapia [7].
Melanoma com comprometimento de linfonodos ou metástases
No estágio III, além da cirurgia, a diretriz recomenda considerar imunoterapia antes da cirurgia (neoadjuvante) em casos com linfonodos clinicamente comprometidos, e tratamento adjuvante com imunoterapia ou, em tumores com mutação no gene BRAF, terapia-alvo [7]. No melanoma em estágio III irressecável ou em estágio IV, a diretriz indica tratamento sistêmico em todos os casos: imunoterapia, isolada ou combinada, e, em tumores com mutação BRAF, terapia-alvo em situações selecionadas [7].
Esses tratamentos têm efeitos adversos próprios e indicação individual. A diretriz é revisada periodicamente, e a versão atual tem validade prevista até o fim de 2026 [7].
Acompanhamento após o tratamento
Depois do tratamento, o acompanhamento é definido conforme o estágio e os fatores de risco de cada pessoa [2]. A diretriz europeia recomenda seguimento específico por estágio por pelo menos cinco anos e avaliação da pele por dez anos, observando que as recomendações de frequência variam entre os países e se baseiam em dados limitados [2]. Metástases podem ocorrer mesmo depois de cinco anos, o que reforça a importância de manter o acompanhamento [2].
Entre as consultas, a orientação para observar a própria pele e procurar o médico diante de lesões novas ou de alterações na região tratada faz parte do cuidado [2].
Perguntas frequentes
Melanoma tem cura?
Quando o melanoma é diagnosticado cedo, ainda restrito à pele, o tratamento é cirúrgico e a sobrevida em dez anos nesse grupo é alta. Não é possível garantir o resultado de cada caso: o prognóstico depende principalmente da espessura, da ulceração e do comprometimento de linfonodos, e é avaliado individualmente.
Toda pinta nova é melanoma?
Não. Uma pinta nova não significa, por si só, melanoma. Ela merece avaliação quando é diferente das outras, cresce, muda de forma ou de cor, ou sangra sem motivo.
Melanoma pode aparecer na unha?
Sim. O melanoma pode surgir embaixo da unha, geralmente como uma faixa escura nova que se alarga ou cuja cor se estende para a pele ao redor. Esse sinal deve ser avaliado por um dermatologista.
Melanoma é sempre escuro?
Não. Alguns melanomas têm pouco ou nenhum pigmento e podem ser rosados, avermelhados ou da cor da pele. O melanoma nodular também pode ter aspecto regular. Por isso, uma lesão nova que cresce deve ser avaliada mesmo que não seja escura.
Pele morena ou negra pode ter melanoma?
Pode. O melanoma acral, nas palmas, plantas e unhas, ocorre em qualquer tom de pele e pode ser diagnosticado mais tarde por ser confundido com manchas ou traumas.
O que significa a espessura de Breslow no laudo?
É a profundidade do melanoma, medida em milímetros. Ela é um dos principais fatores para definir o estágio, a necessidade de exames complementares e o tratamento. Quanto menor a espessura, em geral, melhor o prognóstico.
O melanoma pode voltar depois de retirado?
Pode, e por isso o acompanhamento é recomendado por vários anos, com frequência definida pelo estágio. Observar a própria pele entre as consultas também faz parte do cuidado.
Referências
- Instituto Nacional de Câncer (INCA). Câncer de pele melanoma — versão para a população. Atualizado em 16 set. 2025. Disponível em: www.gov.br
- Garbe C, Amaral T, Peris K, et al. European consensus-based interdisciplinary guideline for melanoma. Part 1: Diagnostics — update 2024. Eur J Cancer. 2025;215:115152. DOI: 10.1016/j.ejca.2024.115152
- Dinnes J, Deeks JJ, Chuchu N, et al. Dermoscopy, with and without visual inspection, for diagnosing melanoma in adults. Cochrane Database Syst Rev. 2018;(12):CD011902. DOI: 10.1002/14651858.CD011902.pub2
- Gershenwald JE, Scolyer RA, Hess KR, et al. Melanoma staging: evidence-based changes in the American Joint Committee on Cancer eighth edition cancer staging manual. CA Cancer J Clin. 2017;67(6):472-492. DOI: 10.3322/caac.21409
- Pampena R, Kyrgidis A, Lallas A, Moscarella E, Argenziano G, Longo C. A meta-analysis of nevus-associated melanoma: prevalence and practical implications. J Am Acad Dermatol. 2017;77(5):938-945.e4. DOI: 10.1016/j.jaad.2017.06.149
- Chamberlain AJ, Fritschi L, Kelly JW. Nodular melanoma: patients’ perceptions of presenting features and implications for earlier detection. J Am Acad Dermatol. 2003;48(5):694-701. DOI: 10.1067/mjd.2003.216
- Garbe C, Amaral T, Peris K, et al. European consensus-based interdisciplinary guideline for melanoma. Part 2: Treatment — update 2024. Eur J Cancer. 2025;215:115153. DOI: 10.1016/j.ejca.2024.115153
Autoria, revisão médica e transparência
Autoria e revisão médica: Dr. Rubens Pontello Junior — Dermatologista, CRM-PR 24.645 | RQE 2.050, diretor técnico do Instituto Pontello.
Revisão médica: 19 de outubro de 2026
Área de atuação: Dermatologia
Publicado em: 19 de outubro de 2026
Conflitos de interesse: O Dr. Rubens Pontello Junior declara não possuir conflitos de interesse relacionados a este artigo.
Transparência: as afirmações clínicas estão sustentadas pelas referências científicas listadas acima. Nenhuma marca de produto é citada. As opções de tratamento descritas refletem diretrizes e não indicam quais procedimentos são realizados pelo Dr. Rubens. Este conteúdo tem caráter informativo, não substitui a consulta médica individualizada e não permite autodiagnóstico.
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