Carcinoma basocelular e espinocelular: os cânceres de pele mais comuns, e que nem sempre são pintas

Ilustração de nódulo rosado e perolado ampliado por lente, capa do artigo sobre carcinomas da pele

Em poucas palavras

O carcinoma basocelular e o carcinoma espinocelular são os tipos mais frequentes de câncer de pele e, na maioria das vezes, não se parecem com uma pinta. Podem surgir como um nódulo rosado ou perolado, uma mancha avermelhada que descama, uma lesão áspera que forma crosta ou uma ferida que sangra e não fecha. O basocelular costuma crescer devagar e raramente se espalha, mas pode invadir e destruir os tecidos ao redor se não for tratado. O espinocelular também tem, em geral, ótimo prognóstico quando tratado cedo, mas tem maior capacidade de atingir camadas profundas e, numa parcela pequena dos casos, de chegar aos gânglios linfáticos [1–3]. Uma lesão que não cicatriza, volta a abrir ou sangra com facilidade deve ser avaliada por um dermatologista: o diagnóstico é confirmado, quando necessário, por biópsia, e o tratamento é definido caso a caso.

O que são os carcinomas da pele

Os carcinomas nascem dos queratinócitos, as células que formam a maior parte da camada mais superficial da pele. Por isso são chamados, em conjunto, de câncer de pele não melanoma, em oposição ao melanoma, que nasce das células que produzem pigmento. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o carcinoma basocelular responde por cerca de 80% desses casos e o espinocelular, por cerca de 20% [1].

Os dois aparecem com mais frequência em áreas expostas ao sol, sobretudo na cabeça e no pescoço [2], mas não se comportam da mesma forma. Por isso, cada um é explicado separadamente a seguir. Para uma visão geral de todos os tipos de câncer de pele, incluindo o melanoma, veja o artigo sobre câncer de pele.

Carcinoma basocelular

Como costuma aparecer

Na forma mais comum, o carcinoma basocelular é uma pápula (pequena elevação na pele) ou um nódulo da cor da pele, rosado ou avermelhado, com brilho perolado ou aspecto translúcido e pequenos vasos visíveis na superfície. Com o tempo, o centro pode afundar, ulcerar e sangrar [1, 2]. Também existem outras apresentações [2]:

  • Superficial: mancha rosada ou avermelhada, plana e levemente descamativa, mais frequente no tronco;
  • Esclerodermiforme (morfeiforme): área endurecida, esbranquiçada ou semelhante a uma cicatriz, com limites pouco nítidos;
  • Pigmentado: variante com pigmento, que pode ser marrom ou acinzentada e, por isso, ser confundida com outras lesões escuras.

A região da cabeça e do pescoço é a localização mais comum [2].

Comportamento: cresce devagar, mas pode invadir

O carcinoma basocelular costuma começar como uma lesão pequena e crescer lentamente, ao longo de meses ou anos [2]. A metástase, isto é, a disseminação para outros órgãos, é muito rara [2]. O que torna o tumor relevante é a capacidade de crescer localmente: quando não tratado, pode invadir e destruir pele, cartilagem e outras estruturas próximas, o que pesa especialmente em áreas delicadas do rosto [2].

O crescimento lento não é motivo para adiar a avaliação: a própria diretriz europeia recomenda explicar ao paciente as consequências de deixar o tumor sem tratamento [2].

Carcinoma espinocelular

Como costuma aparecer

No início, o carcinoma espinocelular costuma ser uma pápula ou placa da cor da pele ou avermelhada, com superfície áspera e descamativa, às vezes difícil de distinguir de uma ceratose actínica [3]. Com o tempo, aumenta de tamanho e frequentemente forma crosta, ferida e sangramento [1, 3]. Algumas lesões ficam endurecidas e mais elevadas, com aspecto verrucoso; outras podem ficar sensíveis ao toque ou doloridas, o que merece atenção [3].

Comportamento e fatores de maior risco

A maior parte dos carcinomas espinocelulares tem ótimo prognóstico quando diagnosticada e tratada corretamente, com taxas de cura em cinco anos acima de 90% [3]. Ainda assim, o espinocelular é diferente do basocelular: pode crescer em profundidade e, numa minoria dos casos, atingir os gânglios linfáticos ou outros órgãos. Em dois estudos citados pela diretriz europeia, com populações e tempos de acompanhamento diferentes, a taxa de metástase foi de 4% em 615 pacientes operados e acompanhados por uma mediana de cerca de três anos e meio, e a de doença linfonodal foi de 3,7% em mais de 900 pacientes de um único centro acompanhados por cerca de dez anos [3]. Os dois números não devem ser somados nem comparados diretamente.

Esse risco não é igual para todos os tumores. A diretriz europeia aponta características associadas a maior risco de recidiva (retorno do tumor) ou metástase, entre elas [3]:

  • tumor com 2 cm ou mais de diâmetro ou com grande espessura;
  • invasão além da gordura sob a pele ou ao redor de nervos;
  • tumores pouco diferenciados ou de subtipos mais agressivos, definidos na análise ao microscópio;
  • localização na orelha;
  • imunossupressão, como em pessoas transplantadas, com algumas doenças do sangue ou com infecção pelo HIV.

Parte dessas características só pode ser avaliada no exame do tecido retirado, o que reforça a importância do diagnóstico histopatológico, isto é, da análise do tecido ao microscópio.

Ceratose actínica: a lesão que pode vir antes

A ceratose actínica é uma lesão áspera e descamativa causada pelo dano solar acumulado, comum no rosto, no couro cabeludo calvo, nas orelhas e no dorso das mãos. A maior parte dos carcinomas espinocelulares surge em pele com ceratoses actínicas e sinais de dano solar crônico [3]. Isso não significa que toda ceratose vá virar câncer. Estudos observacionais encontraram taxas de progressão de ceratose actínica para carcinoma espinocelular entre 0% e 0,075% por lesão ao ano. Entretanto, os dados disponíveis são limitados e não permitem estimar com segurança o risco individual de progressão. O risco pode ser maior em pessoas com histórico de câncer de pele não melanoma [5]. Parte das lesões regride espontaneamente [5].

Na prática, a presença de ceratoses actínicas indica pele com dano solar importante, que merece avaliação dermatológica e acompanhamento.

Basocelular e espinocelular lado a lado

Ilustração comparando carcinoma basocelular, nódulo rosado e perolado, e carcinoma espinocelular, lesão avermelhada e áspera
Carcinoma basocelular Carcinoma espinocelular
Frequência Cerca de 80% dos cânceres de pele não melanoma [1] Cerca de 20% dos cânceres de pele não melanoma [1]
Aparência mais comum Nódulo rosado, perolado ou translúcido, com vasos visíveis; pode ulcerar [1, 2] Lesão avermelhada, áspera ou descamativa, que forma crosta e ferida [1, 3]
Crescimento Geralmente lento [2] Variável; pode ser mais rápido [3]
Metástase Muito rara [2] Incomum, mais provável em tumores de maior risco [3]

Observação: a tabela resume padrões frequentes. A distinção entre os dois, e entre eles e outras lesões, depende do exame dermatológico e, quando indicado, da análise ao microscópio.

A ferida que não cicatriza: quando desconfiar

Um dos sinais mais característicos dos carcinomas é a ferida que não fecha. Ela pode parecer um machucado comum, formar crosta, cair e voltar a abrir no mesmo lugar, ou sangrar com atritos mínimos, como ao secar o rosto ou passar a roupa [1]. Merecem avaliação:

  • feridas sem causa clara que não cicatrizam ou que cicatrizam e reabrem no mesmo ponto;
  • lesões que sangram com facilidade ou formam crosta repetidamente;
  • nódulos rosados ou perolados, ou manchas ásperas e descamativas, que persistem ou aumentam;
  • áreas endurecidas, com aspecto de cicatriz, que surgem sem cirurgia ou trauma anterior.

O INCA orienta que qualquer lesão ou ferida na pele que não se resolva em 15 dias seja avaliada por um especialista [1]. Esse prazo é um limite, não um tempo de espera: uma lesão que cresce, sangra espontaneamente ou já parece suspeita deve ser avaliada sem aguardar.

Ciclo da ferida que não cicatriza e orientação de avaliar lesões que não se resolvem em 15 dias

Por que nem todo câncer de pele parece uma pinta

Muitas pessoas associam câncer de pele apenas a pintas escuras. Essa é a apresentação típica do melanoma, que nasce das células de pigmento. Os carcinomas, ao contrário, geralmente são rosados, avermelhados, perolados ou da cor da pele, e por isso podem passar despercebidos ou ser confundidos com espinhas, irritações ou feridas comuns. A regra ABCDE, pensada para pintas pigmentadas, não ajuda a reconhecê-los. Para os sinais de alerta em pintas, veja o artigo sobre pinta suspeita.

Como é feito o diagnóstico

A suspeita começa no exame clínico. Para o carcinoma basocelular, a diretriz europeia considera que o diagnóstico se baseia no aspecto clínico e na dermatoscopia (exame com aumento e iluminação especial), com confirmação histopatológica obrigatória quando a lesão é duvidosa [2]. No espinocelular, as lesões iniciais podem ser difíceis de distinguir de ceratoses actínicas e de outras lesões, e a análise do tecido também define características que influenciam o risco e o tratamento, como espessura, grau de diferenciação e invasão de nervos [3].

Por isso, quando há suspeita, o dermatologista pode indicar uma biópsia, que retira uma amostra ou a lesão inteira para análise ao microscópio. A forma de obter a amostra depende do tamanho, da localização e do aspecto da lesão. Em tumores de maior risco ou avançados, podem ser necessários exames complementares de estadiamento, que avaliam se o tumor se estendeu além da pele, conforme a avaliação médica [3].

Opções de tratamento em linhas gerais

As informações abaixo descrevem, de forma geral, o que as diretrizes recomendam. Elas não substituem a avaliação individual nem indicam quais procedimentos são realizados em um consultório específico: a escolha depende do tipo, do subtipo, do tamanho, da localização e do risco do tumor, além da saúde e das preferências de cada pessoa. Quando o melhor tratamento exige outro especialista ou outro serviço, o paciente é encaminhado.

Carcinoma basocelular

  • Cirurgia com retirada completa do tumor: é o tratamento de primeira escolha [1, 2].
  • Cirurgia micrográfica (como a cirurgia de Mohs): técnica em que as margens são examinadas durante o procedimento; é recomendada para tumores de alto risco, recidivados ou localizados em áreas anatômicas críticas [2].
  • Tratamentos tópicos, terapia fotodinâmica e métodos destrutivos (como curetagem, eletrocoagulação ou crioterapia): podem ser considerados em tumores de baixo risco, principalmente superficiais, conforme indicação [2]. A crioterapia e o laser destroem o tecido e não permitem análise ao microscópio do material [2].
  • Radioterapia: alternativa para quem não pode ou não deseja ser operado, especialmente pessoas mais idosas [2].
  • Casos avançados: tumores localmente avançados ou com metástase são discutidos por equipe multidisciplinar e podem receber medicamentos de uso sistêmico específicos [2].

Carcinoma espinocelular

  • Cirurgia com avaliação das margens ou cirurgia micrográfica: é o tratamento de primeira escolha; obter margens livres é o ponto mais importante [4].
  • Métodos destrutivos: por consenso dos especialistas, curetagem com eletrocoagulação, crioterapia, terapia fotodinâmica e laser não devem ser usados como tratamento do carcinoma espinocelular invasivo primário [4].
  • Radioterapia: considerada quando a cirurgia não é possível ou não é aceita [4].
  • Casos com metástase ou localmente avançados: exigem decisão de equipe multidisciplinar e podem incluir cirurgia dos gânglios, radioterapia e imunoterapia [4].

Limites das evidências

Nem todas as recomendações têm o mesmo nível de evidência: algumas, como a contraindicação de métodos destrutivos no espinocelular invasivo, são consensos de especialistas, por falta de estudos comparativos [4]. Em todos os casos, tratar uma lesão sem diagnóstico, com cauterização, ácidos ou pomadas por conta própria, pode atrasar o tratamento adequado e eliminar o tecido necessário para a análise.

Depois do tratamento: acompanhamento e novos tumores

Ter um carcinoma de pele aumenta a chance de desenvolver outros ao longo da vida. Em uma metanálise citada pela diretriz europeia, o risco acumulado de um novo carcinoma basocelular em cinco anos, em pessoas que já tiveram um carcinoma basocelular, foi de 36%. Segundo a mesma diretriz, a maioria desses novos tumores surge nos três primeiros anos após o diagnóstico, embora o risco continue elevado depois disso [2]. Quem teve basocelular também tem risco maior de espinocelular e de melanoma [2].

O acompanhamento é individualizado. Para o carcinoma basocelular de baixo risco, não há evidência de que consultas muito frequentes melhorem os resultados; ainda assim, a diretriz considera razoável oferecer a todos uma consulta de retorno para orientar sobre o diagnóstico, a proteção solar e a observação da própria pele, e recomenda acompanhamento prolongado para quem teve tumores de alto risco ou múltiplos [2]. No espinocelular, o maior risco de recidiva está nos dois primeiros anos, a frequência das consultas depende do risco de cada caso, e a orientação inclui observar a pele e as regiões dos gânglios [4]. Pessoas imunossuprimidas exigem atenção especial [4].

Entre as consultas, vale procurar o dermatologista ao notar qualquer alteração na área tratada ou uma lesão nova com as características descritas neste artigo.

Perguntas frequentes

Carcinoma basocelular é grave?

É um câncer, e por isso precisa de tratamento, mas na grande maioria dos casos tem comportamento local e raramente se espalha. O risco está no crescimento ao redor da lesão, que pode destruir tecidos quando o tratamento é adiado. Diagnosticado cedo, costuma ter tratamento eficaz.

Carcinoma basocelular dá metástase?

Muito raramente. A metástase do basocelular é considerada excepcional; o que preocupa é a invasão local, especialmente no rosto.

Qual é mais perigoso: basocelular ou espinocelular?

Em geral, o espinocelular, porque tem maior capacidade de crescer em profundidade e, em uma minoria dos casos, de atingir gânglios ou outros órgãos. Ainda assim, a maioria dos espinocelulares tem ótimo prognóstico quando tratada cedo e corretamente.

Uma ferida no rosto que não cicatriza pode ser câncer de pele?

Pode. Feridas que não fecham, que cicatrizam e reabrem ou que sangram com facilidade estão entre as formas mais comuns de apresentação dos carcinomas. Não é preciso esperar que ela complete um prazo para procurar avaliação se já houver sinais suspeitos.

Toda ceratose actínica vira câncer?

Não. A chance de uma ceratose isolada evoluir para carcinoma espinocelular é baixa, e algumas regridem sozinhas. Mas a ceratose indica dano solar importante e pele com maior risco, por isso deve ser avaliada e acompanhada pelo dermatologista.

Pomadas podem tratar carcinoma de pele?

Alguns carcinomas basocelulares superficiais de baixo risco podem ser tratados com medicamentos tópicos, sempre com indicação e acompanhamento médico, depois do diagnóstico. Para o espinocelular invasivo, o tratamento recomendado é cirúrgico ou, quando a cirurgia não é possível, a radioterapia. Usar pomadas por conta própria pode atrasar o tratamento correto.

Depois de tratar um carcinoma, pode aparecer outro?

Sim. Quem já teve um carcinoma de pele tem risco maior de desenvolver novos tumores, inclusive em outras áreas. Por isso, o acompanhamento e a observação da própria pele continuam importantes depois do tratamento, com frequência definida conforme o risco de cada pessoa.

Referências

  1. Instituto Nacional de Câncer (INCA). Câncer de pele não melanoma — versão para profissionais de saúde. Atualizado em 7 jul. 2023. Disponível em: www.gov.br
  2. Peris K, Fargnoli MC, Kaufmann R, et al. European consensus-based interdisciplinary guideline for diagnosis and treatment of basal cell carcinoma—update 2023. Eur J Cancer. 2023;192:113254. DOI: 10.1016/j.ejca.2023.113254
  3. Stratigos AJ, Garbe C, Dessinioti C, et al. European consensus-based interdisciplinary guideline for invasive cutaneous squamous cell carcinoma. Part 1: Diagnostics and prevention—update 2023. Eur J Cancer. 2023;193:113251. DOI: 10.1016/j.ejca.2023.113251
  4. Stratigos AJ, Garbe C, Dessinioti C, et al. European consensus-based interdisciplinary guideline for invasive cutaneous squamous cell carcinoma. Part 2: Treatment—update 2023. Eur J Cancer. 2023;193:113252. DOI: 10.1016/j.ejca.2023.113252
  5. Werner RN, Sammain A, Erdmann R, Hartmann V, Stockfleth E, Nast A. The natural history of actinic keratosis: a systematic review. Br J Dermatol. 2013;169(3):502-518. DOI: 10.1111/bjd.12420

Autoria, revisão médica e transparência

Autoria e revisão médica: Dr. Rubens Pontello Junior — Dermatologista, CRM-PR 24.645 | RQE 2.050, diretor técnico do Instituto Pontello.
Revisão médica: 19 de outubro de 2026
Área de atuação: Dermatologia
Publicado em: 19 de outubro de 2026
Conflitos de interesse: O Dr. Rubens Pontello Junior declara não possuir conflitos de interesse relacionados a este artigo.
Transparência: as afirmações clínicas estão sustentadas pelas referências científicas listadas acima. Nenhuma marca de produto é citada. As opções de tratamento descritas refletem diretrizes e não indicam quais procedimentos são realizados pelo Dr. Rubens. Este conteúdo tem caráter informativo, não substitui a consulta médica individualizada e não permite autodiagnóstico.

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