Categoria: Câncer de Pele

Artigos sobre câncer de pele: melanoma, carcinoma basocelular e espinocelular, pintas suspeitas e quando procurar o dermatologista.

  • Melanoma: sinais, diagnóstico e por que identificar cedo faz diferença

    Melanoma: sinais, diagnóstico e por que identificar cedo faz diferença

    Em poucas palavras

    O melanoma é o câncer de pele que nasce dos melanócitos, as células que produzem o pigmento da pele. É bem menos frequente que os carcinomas, mas é o tipo com maior capacidade de se espalhar para outros órgãos. A maioria dos casos é diagnosticada quando o tumor ainda está restrito à pele, fase em que o tratamento costuma ser cirúrgico e o prognóstico é, em geral, favorável [2]. Quanto mais fino o melanoma no momento do diagnóstico, melhores tendem a ser os resultados [4]. Uma pinta nova não significa melanoma, mas lesões que mudam, que são diferentes das outras ou que crescem como um nódulo devem ser avaliadas por um dermatologista. O diagnóstico só é confirmado pela análise da lesão ao microscópio.

    O que é melanoma

    Melanoma é um tumor maligno originado dos melanócitos. Na grande maioria das vezes, surge na pele, mas também pode aparecer em mucosas e nos olhos; este artigo trata do melanoma cutâneo, o da pele.

    O melanoma pode surgir em pele aparentemente normal ou a partir de uma pinta que já existia. Em uma metanálise de 38 estudos observacionais, 29,1% dos melanomas analisados estavam associados a uma pinta preexistente; nos demais casos (70,9%), não foi identificada pinta prévia [5]. Por isso, tanto o aparecimento de lesões novas quanto a mudança em pintas antigas merecem atenção.

    Por que o melanoma exige atenção, mesmo sendo menos frequente

    Para cada ano entre 2026 e 2028, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 9.360 casos novos de melanoma no Brasil; em 2024, foram registradas 2.031 mortes pela doença [1]. É um número muito menor que o dos carcinomas de pele, mas, segundo a diretriz europeia, o melanoma responde por cerca de 90% das mortes por câncer de pele, porque pode se disseminar pelos vasos linfáticos e sanguíneos [2].

    A diretriz europeia informa que cerca de 90% dos melanomas são diagnosticados como tumores primários, sem sinais de metástase. O trecho da diretriz não identifica a população de origem dessa proporção, que por isso não deve ser lida como estimativa para o Brasil nem como valor universal. Nesse grupo, a mesma diretriz descreve sobrevida específica pela doença em dez anos entre 85% e 95% [2]. Esses números se referem a grupos de pacientes; a perspectiva de cada pessoa depende das características do seu tumor.

    Quem tem mais risco

    Segundo a diretriz europeia, o fator de risco mais importante é o número total de pintas no corpo, seguido da presença de pintas atípicas, maiores e de aspecto irregular [2]. Também aumentam o risco o tipo de pele, o dano solar acumulado e o histórico familiar de melanoma [2]. O INCA destaca ainda a exposição intensa ao sol, sobretudo na infância e na adolescência, o bronzeamento artificial, a pele e os olhos claros e o histórico pessoal de câncer de pele [1].

    Ter um ou mais desses fatores não significa que a pessoa terá melanoma, assim como a ausência deles não elimina a possibilidade. Os fatores de risco ajudam o dermatologista a definir quem se beneficia de acompanhamento mais próximo. A visão geral sobre prevenção e fatores de risco do câncer de pele está no artigo sobre câncer de pele.

    Como o melanoma pode se apresentar

    O aspecto mais conhecido é o de uma lesão escura, assimétrica, com bordas irregulares, várias cores e que muda ao longo do tempo, características resumidas na regra ABCDE. Mas nem todo melanoma segue esse padrão, e algumas apresentações são mais difíceis de reconhecer [2]. Os sinais de alerta em pintas, a regra ABCDE e o sinal do patinho feio estão detalhados no artigo sobre pinta suspeita.

    Ilustração das formas de melanoma: clássica, nodular, acral na unha e pouco pigmentado

    Melanoma nodular

    Surge como um nódulo elevado, firme e muitas vezes simétrico, que pode ser escuro, azulado, avermelhado ou rosado e cresce em semanas ou poucos meses [6]. Como pode não ter bordas irregulares nem várias cores, costuma escapar dos critérios clássicos [2, 6]. Um nódulo novo que cresce rapidamente deve ser avaliado sem demora, mesmo que pareça regular.

    Melanoma em palmas, plantas e unhas

    O melanoma acral aparece nas palmas das mãos, nas plantas dos pés e embaixo das unhas, em áreas pouco expostas ao sol, e pode ocorrer em qualquer tom de pele [2]. Na unha, o sinal de atenção é uma faixa escura nova, que se alarga ou cuja pigmentação passa para a pele ao redor. Por ser confundido com manchas, calos ou traumas, pode ser diagnosticado mais tarde, e a diretriz europeia registra prognóstico menos favorável para esse subtipo em comparação com outros [2].

    Melanoma pouco pigmentado

    Alguns melanomas têm pouco ou nenhum pigmento e podem parecer uma lesão rosada, avermelhada ou da cor da pele [2]. Por não serem escuros, são facilmente confundidos com lesões benignas ou inflamatórias. Uma lesão rosada nova, que persiste e cresce, também merece avaliação.

    Por que o ABCDE não basta para diagnosticar

    A regra ABCDE é uma ferramenta de alerta, não um teste diagnóstico. Na maior parte das vezes, alterações como essas na pele não são causadas por câncer [1], e melanomas nodulares ou pouco pigmentados podem não preencher esses critérios [2, 6]. Por isso, a decisão de investigar uma lesão depende do exame dermatológico, da comparação com as demais pintas e, principalmente, da mudança ao longo do tempo.

    Como é feito o diagnóstico

    A investigação começa pelo exame da pele como um todo. A dermatoscopia, exame com aumento e iluminação especial, melhora a precisão do diagnóstico de melanoma quando usada em conjunto com a inspeção visual por profissionais treinados [3].

    Quando há suspeita, a confirmação depende sempre do exame histopatológico, isto é, da análise do tecido ao microscópio [2]. A diretriz europeia recomenda que a lesão suspeita seja retirada por completo, com margens estreitas, para permitir o diagnóstico e a medição correta da espessura [7]. A forma de obtenção da amostra é definida pelo médico conforme o tamanho e a localização da lesão.

    Etapas do diagnóstico do melanoma: exame da pele, dermatoscopia, retirada da lesão e exame histopatológico

    Espessura de Breslow: o que o laudo informa

    Quando o diagnóstico é confirmado, o laudo do exame traz informações que orientam o tratamento. A principal é a espessura de Breslow: a profundidade do tumor, medida em milímetros no exame histopatológico, em geral a partir da camada granulosa da epiderme (ou da base da ulceração, quando presente) até a célula tumoral invasiva mais profunda [2, 4]. Em geral, quanto mais fino o melanoma, menor o risco de disseminação.

    O laudo também informa se há ulceração, isto é, perda da camada superficial da pele sobre o tumor, que indica comportamento mais agressivo [4]. Pelo sistema de estadiamento da AJCC, os melanomas são classificados em T1 (até 1,0 mm), T2 (mais de 1,0 até 2,0 mm), T3 (mais de 2,0 até 4,0 mm) e T4 (mais de 4,0 mm), cada um subdividido conforme a presença de ulceração [4]. O melanoma in situ, restrito à camada mais superficial da pele, não tem invasão e corresponde ao estágio 0.

    Esquema da espessura de Breslow nas camadas da pele e classificação T1 a T4 do melanoma

    Estadiamento e prognóstico

    O estadiamento resume a extensão da doença. De forma simplificada:

    • Estágio 0: melanoma in situ, restrito à epiderme;
    • Estágios I e II: tumor restrito à pele, classificado pela espessura e pela ulceração;
    • Estágio III: comprometimento de linfonodos (gânglios) da região ou de pele próxima ao tumor;
    • Estágio IV: metástase para órgãos distantes.

    Para melanomas a partir de 1,0 mm de espessura, ou a partir de 0,8 mm com outros fatores de risco no laudo, a diretriz europeia recomenda oferecer a biópsia do linfonodo sentinela, que avalia o primeiro gânglio que drena a região do tumor [7]. Esse exame é importante para o estadiamento e para a decisão de tratamento; a própria diretriz ressalta que ainda não há benefício claro de sobrevida atribuído a ele [7].

    A tabela abaixo mostra a sobrevida específica pelo melanoma por estágio patológico na base de dados internacional que embasou a 8ª edição do estadiamento da AJCC [4]:

    Estágio patológico (AJCC 8ª ed.) Sobrevida específica em 5 anos Sobrevida específica em 10 anos
    I 98% 95%
    II 90% 84%
    III 77% 69%

    Observação: os dados vêm de mais de 46 mil pacientes com melanoma em estágios patológicos I a III, diagnosticados a partir de 1998 em 10 centros em diferentes países [4]. Sobrevida específica considera apenas mortes causadas pelo melanoma. Os números descrevem grupos, não o prognóstico de uma pessoa, e não representam resultados garantidos dos tratamentos atuais, que podem não estar refletidos nessa base histórica. O estágio IV não foi incluído nessa análise.

    Tratamento em linhas gerais

    As informações abaixo resumem as recomendações da diretriz europeia de 2024 e não substituem a avaliação individual [7]. As decisões em casos mais avançados são tomadas por equipe multidisciplinar, e nem todas as etapas são realizadas pelo mesmo profissional ou no mesmo serviço.

    Melanoma localizado

    O tratamento padrão é a ampliação cirúrgica da área onde estava o melanoma, com margens de segurança de 1 a 2 cm, definidas pela espessura do tumor; margens maiores que 2 cm não são recomendadas [7]. Conforme a espessura, pode ser indicada a biópsia do linfonodo sentinela. Em tumores de maior risco já operados, a partir do estágio IIB, pode ser proposto tratamento complementar (adjuvante) com imunoterapia [7].

    Melanoma com comprometimento de linfonodos ou metástases

    No estágio III, além da cirurgia, a diretriz recomenda considerar imunoterapia antes da cirurgia (neoadjuvante) em casos com linfonodos clinicamente comprometidos, e tratamento adjuvante com imunoterapia ou, em tumores com mutação no gene BRAF, terapia-alvo [7]. No melanoma em estágio III irressecável ou em estágio IV, a diretriz indica tratamento sistêmico em todos os casos: imunoterapia, isolada ou combinada, e, em tumores com mutação BRAF, terapia-alvo em situações selecionadas [7].

    Esses tratamentos têm efeitos adversos próprios e indicação individual. A diretriz é revisada periodicamente, e a versão atual tem validade prevista até o fim de 2026 [7].

    Acompanhamento após o tratamento

    Depois do tratamento, o acompanhamento é definido conforme o estágio e os fatores de risco de cada pessoa [2]. A diretriz europeia recomenda seguimento específico por estágio por pelo menos cinco anos e avaliação da pele por dez anos, observando que as recomendações de frequência variam entre os países e se baseiam em dados limitados [2]. Metástases podem ocorrer mesmo depois de cinco anos, o que reforça a importância de manter o acompanhamento [2].

    Entre as consultas, a orientação para observar a própria pele e procurar o médico diante de lesões novas ou de alterações na região tratada faz parte do cuidado [2].

    Perguntas frequentes

    Melanoma tem cura?

    Quando o melanoma é diagnosticado cedo, ainda restrito à pele, o tratamento é cirúrgico e a sobrevida em dez anos nesse grupo é alta. Não é possível garantir o resultado de cada caso: o prognóstico depende principalmente da espessura, da ulceração e do comprometimento de linfonodos, e é avaliado individualmente.

    Toda pinta nova é melanoma?

    Não. Uma pinta nova não significa, por si só, melanoma. Ela merece avaliação quando é diferente das outras, cresce, muda de forma ou de cor, ou sangra sem motivo.

    Melanoma pode aparecer na unha?

    Sim. O melanoma pode surgir embaixo da unha, geralmente como uma faixa escura nova que se alarga ou cuja cor se estende para a pele ao redor. Esse sinal deve ser avaliado por um dermatologista.

    Melanoma é sempre escuro?

    Não. Alguns melanomas têm pouco ou nenhum pigmento e podem ser rosados, avermelhados ou da cor da pele. O melanoma nodular também pode ter aspecto regular. Por isso, uma lesão nova que cresce deve ser avaliada mesmo que não seja escura.

    Pele morena ou negra pode ter melanoma?

    Pode. O melanoma acral, nas palmas, plantas e unhas, ocorre em qualquer tom de pele e pode ser diagnosticado mais tarde por ser confundido com manchas ou traumas.

    O que significa a espessura de Breslow no laudo?

    É a profundidade do melanoma, medida em milímetros. Ela é um dos principais fatores para definir o estágio, a necessidade de exames complementares e o tratamento. Quanto menor a espessura, em geral, melhor o prognóstico.

    O melanoma pode voltar depois de retirado?

    Pode, e por isso o acompanhamento é recomendado por vários anos, com frequência definida pelo estágio. Observar a própria pele entre as consultas também faz parte do cuidado.

    Referências

    1. Instituto Nacional de Câncer (INCA). Câncer de pele melanoma — versão para a população. Atualizado em 16 set. 2025. Disponível em: www.gov.br
    2. Garbe C, Amaral T, Peris K, et al. European consensus-based interdisciplinary guideline for melanoma. Part 1: Diagnostics — update 2024. Eur J Cancer. 2025;215:115152. DOI: 10.1016/j.ejca.2024.115152
    3. Dinnes J, Deeks JJ, Chuchu N, et al. Dermoscopy, with and without visual inspection, for diagnosing melanoma in adults. Cochrane Database Syst Rev. 2018;(12):CD011902. DOI: 10.1002/14651858.CD011902.pub2
    4. Gershenwald JE, Scolyer RA, Hess KR, et al. Melanoma staging: evidence-based changes in the American Joint Committee on Cancer eighth edition cancer staging manual. CA Cancer J Clin. 2017;67(6):472-492. DOI: 10.3322/caac.21409
    5. Pampena R, Kyrgidis A, Lallas A, Moscarella E, Argenziano G, Longo C. A meta-analysis of nevus-associated melanoma: prevalence and practical implications. J Am Acad Dermatol. 2017;77(5):938-945.e4. DOI: 10.1016/j.jaad.2017.06.149
    6. Chamberlain AJ, Fritschi L, Kelly JW. Nodular melanoma: patients’ perceptions of presenting features and implications for earlier detection. J Am Acad Dermatol. 2003;48(5):694-701. DOI: 10.1067/mjd.2003.216
    7. Garbe C, Amaral T, Peris K, et al. European consensus-based interdisciplinary guideline for melanoma. Part 2: Treatment — update 2024. Eur J Cancer. 2025;215:115153. DOI: 10.1016/j.ejca.2024.115153

    Autoria, revisão médica e transparência

    Autoria e revisão médica: Dr. Rubens Pontello Junior — Dermatologista, CRM-PR 24.645 | RQE 2.050, diretor técnico do Instituto Pontello.
    Revisão médica: 19 de outubro de 2026
    Área de atuação: Dermatologia
    Publicado em: 19 de outubro de 2026
    Conflitos de interesse: O Dr. Rubens Pontello Junior declara não possuir conflitos de interesse relacionados a este artigo.
    Transparência: as afirmações clínicas estão sustentadas pelas referências científicas listadas acima. Nenhuma marca de produto é citada. As opções de tratamento descritas refletem diretrizes e não indicam quais procedimentos são realizados pelo Dr. Rubens. Este conteúdo tem caráter informativo, não substitui a consulta médica individualizada e não permite autodiagnóstico.

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  • Carcinoma basocelular e espinocelular: os cânceres de pele mais comuns, e que nem sempre são pintas

    Carcinoma basocelular e espinocelular: os cânceres de pele mais comuns, e que nem sempre são pintas

    Em poucas palavras

    O carcinoma basocelular e o carcinoma espinocelular são os tipos mais frequentes de câncer de pele e, na maioria das vezes, não se parecem com uma pinta. Podem surgir como um nódulo rosado ou perolado, uma mancha avermelhada que descama, uma lesão áspera que forma crosta ou uma ferida que sangra e não fecha. O basocelular costuma crescer devagar e raramente se espalha, mas pode invadir e destruir os tecidos ao redor se não for tratado. O espinocelular também tem, em geral, ótimo prognóstico quando tratado cedo, mas tem maior capacidade de atingir camadas profundas e, numa parcela pequena dos casos, de chegar aos gânglios linfáticos [1–3]. Uma lesão que não cicatriza, volta a abrir ou sangra com facilidade deve ser avaliada por um dermatologista: o diagnóstico é confirmado, quando necessário, por biópsia, e o tratamento é definido caso a caso.

    O que são os carcinomas da pele

    Os carcinomas nascem dos queratinócitos, as células que formam a maior parte da camada mais superficial da pele. Por isso são chamados, em conjunto, de câncer de pele não melanoma, em oposição ao melanoma, que nasce das células que produzem pigmento. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o carcinoma basocelular responde por cerca de 80% desses casos e o espinocelular, por cerca de 20% [1].

    Os dois aparecem com mais frequência em áreas expostas ao sol, sobretudo na cabeça e no pescoço [2], mas não se comportam da mesma forma. Por isso, cada um é explicado separadamente a seguir. Para uma visão geral de todos os tipos de câncer de pele, incluindo o melanoma, veja o artigo sobre câncer de pele.

    Carcinoma basocelular

    Como costuma aparecer

    Na forma mais comum, o carcinoma basocelular é uma pápula (pequena elevação na pele) ou um nódulo da cor da pele, rosado ou avermelhado, com brilho perolado ou aspecto translúcido e pequenos vasos visíveis na superfície. Com o tempo, o centro pode afundar, ulcerar e sangrar [1, 2]. Também existem outras apresentações [2]:

    • Superficial: mancha rosada ou avermelhada, plana e levemente descamativa, mais frequente no tronco;
    • Esclerodermiforme (morfeiforme): área endurecida, esbranquiçada ou semelhante a uma cicatriz, com limites pouco nítidos;
    • Pigmentado: variante com pigmento, que pode ser marrom ou acinzentada e, por isso, ser confundida com outras lesões escuras.

    A região da cabeça e do pescoço é a localização mais comum [2].

    Comportamento: cresce devagar, mas pode invadir

    O carcinoma basocelular costuma começar como uma lesão pequena e crescer lentamente, ao longo de meses ou anos [2]. A metástase, isto é, a disseminação para outros órgãos, é muito rara [2]. O que torna o tumor relevante é a capacidade de crescer localmente: quando não tratado, pode invadir e destruir pele, cartilagem e outras estruturas próximas, o que pesa especialmente em áreas delicadas do rosto [2].

    O crescimento lento não é motivo para adiar a avaliação: a própria diretriz europeia recomenda explicar ao paciente as consequências de deixar o tumor sem tratamento [2].

    Carcinoma espinocelular

    Como costuma aparecer

    No início, o carcinoma espinocelular costuma ser uma pápula ou placa da cor da pele ou avermelhada, com superfície áspera e descamativa, às vezes difícil de distinguir de uma ceratose actínica [3]. Com o tempo, aumenta de tamanho e frequentemente forma crosta, ferida e sangramento [1, 3]. Algumas lesões ficam endurecidas e mais elevadas, com aspecto verrucoso; outras podem ficar sensíveis ao toque ou doloridas, o que merece atenção [3].

    Comportamento e fatores de maior risco

    A maior parte dos carcinomas espinocelulares tem ótimo prognóstico quando diagnosticada e tratada corretamente, com taxas de cura em cinco anos acima de 90% [3]. Ainda assim, o espinocelular é diferente do basocelular: pode crescer em profundidade e, numa minoria dos casos, atingir os gânglios linfáticos ou outros órgãos. Em dois estudos citados pela diretriz europeia, com populações e tempos de acompanhamento diferentes, a taxa de metástase foi de 4% em 615 pacientes operados e acompanhados por uma mediana de cerca de três anos e meio, e a de doença linfonodal foi de 3,7% em mais de 900 pacientes de um único centro acompanhados por cerca de dez anos [3]. Os dois números não devem ser somados nem comparados diretamente.

    Esse risco não é igual para todos os tumores. A diretriz europeia aponta características associadas a maior risco de recidiva (retorno do tumor) ou metástase, entre elas [3]:

    • tumor com 2 cm ou mais de diâmetro ou com grande espessura;
    • invasão além da gordura sob a pele ou ao redor de nervos;
    • tumores pouco diferenciados ou de subtipos mais agressivos, definidos na análise ao microscópio;
    • localização na orelha;
    • imunossupressão, como em pessoas transplantadas, com algumas doenças do sangue ou com infecção pelo HIV.

    Parte dessas características só pode ser avaliada no exame do tecido retirado, o que reforça a importância do diagnóstico histopatológico, isto é, da análise do tecido ao microscópio.

    Ceratose actínica: a lesão que pode vir antes

    A ceratose actínica é uma lesão áspera e descamativa causada pelo dano solar acumulado, comum no rosto, no couro cabeludo calvo, nas orelhas e no dorso das mãos. A maior parte dos carcinomas espinocelulares surge em pele com ceratoses actínicas e sinais de dano solar crônico [3]. Isso não significa que toda ceratose vá virar câncer. Estudos observacionais encontraram taxas de progressão de ceratose actínica para carcinoma espinocelular entre 0% e 0,075% por lesão ao ano. Entretanto, os dados disponíveis são limitados e não permitem estimar com segurança o risco individual de progressão. O risco pode ser maior em pessoas com histórico de câncer de pele não melanoma [5]. Parte das lesões regride espontaneamente [5].

    Na prática, a presença de ceratoses actínicas indica pele com dano solar importante, que merece avaliação dermatológica e acompanhamento.

    Basocelular e espinocelular lado a lado

    Ilustração comparando carcinoma basocelular, nódulo rosado e perolado, e carcinoma espinocelular, lesão avermelhada e áspera
    Carcinoma basocelular Carcinoma espinocelular
    Frequência Cerca de 80% dos cânceres de pele não melanoma [1] Cerca de 20% dos cânceres de pele não melanoma [1]
    Aparência mais comum Nódulo rosado, perolado ou translúcido, com vasos visíveis; pode ulcerar [1, 2] Lesão avermelhada, áspera ou descamativa, que forma crosta e ferida [1, 3]
    Crescimento Geralmente lento [2] Variável; pode ser mais rápido [3]
    Metástase Muito rara [2] Incomum, mais provável em tumores de maior risco [3]

    Observação: a tabela resume padrões frequentes. A distinção entre os dois, e entre eles e outras lesões, depende do exame dermatológico e, quando indicado, da análise ao microscópio.

    A ferida que não cicatriza: quando desconfiar

    Um dos sinais mais característicos dos carcinomas é a ferida que não fecha. Ela pode parecer um machucado comum, formar crosta, cair e voltar a abrir no mesmo lugar, ou sangrar com atritos mínimos, como ao secar o rosto ou passar a roupa [1]. Merecem avaliação:

    • feridas sem causa clara que não cicatrizam ou que cicatrizam e reabrem no mesmo ponto;
    • lesões que sangram com facilidade ou formam crosta repetidamente;
    • nódulos rosados ou perolados, ou manchas ásperas e descamativas, que persistem ou aumentam;
    • áreas endurecidas, com aspecto de cicatriz, que surgem sem cirurgia ou trauma anterior.

    O INCA orienta que qualquer lesão ou ferida na pele que não se resolva em 15 dias seja avaliada por um especialista [1]. Esse prazo é um limite, não um tempo de espera: uma lesão que cresce, sangra espontaneamente ou já parece suspeita deve ser avaliada sem aguardar.

    Ciclo da ferida que não cicatriza e orientação de avaliar lesões que não se resolvem em 15 dias

    Por que nem todo câncer de pele parece uma pinta

    Muitas pessoas associam câncer de pele apenas a pintas escuras. Essa é a apresentação típica do melanoma, que nasce das células de pigmento. Os carcinomas, ao contrário, geralmente são rosados, avermelhados, perolados ou da cor da pele, e por isso podem passar despercebidos ou ser confundidos com espinhas, irritações ou feridas comuns. A regra ABCDE, pensada para pintas pigmentadas, não ajuda a reconhecê-los. Para os sinais de alerta em pintas, veja o artigo sobre pinta suspeita.

    Como é feito o diagnóstico

    A suspeita começa no exame clínico. Para o carcinoma basocelular, a diretriz europeia considera que o diagnóstico se baseia no aspecto clínico e na dermatoscopia (exame com aumento e iluminação especial), com confirmação histopatológica obrigatória quando a lesão é duvidosa [2]. No espinocelular, as lesões iniciais podem ser difíceis de distinguir de ceratoses actínicas e de outras lesões, e a análise do tecido também define características que influenciam o risco e o tratamento, como espessura, grau de diferenciação e invasão de nervos [3].

    Por isso, quando há suspeita, o dermatologista pode indicar uma biópsia, que retira uma amostra ou a lesão inteira para análise ao microscópio. A forma de obter a amostra depende do tamanho, da localização e do aspecto da lesão. Em tumores de maior risco ou avançados, podem ser necessários exames complementares de estadiamento, que avaliam se o tumor se estendeu além da pele, conforme a avaliação médica [3].

    Opções de tratamento em linhas gerais

    As informações abaixo descrevem, de forma geral, o que as diretrizes recomendam. Elas não substituem a avaliação individual nem indicam quais procedimentos são realizados em um consultório específico: a escolha depende do tipo, do subtipo, do tamanho, da localização e do risco do tumor, além da saúde e das preferências de cada pessoa. Quando o melhor tratamento exige outro especialista ou outro serviço, o paciente é encaminhado.

    Carcinoma basocelular

    • Cirurgia com retirada completa do tumor: é o tratamento de primeira escolha [1, 2].
    • Cirurgia micrográfica (como a cirurgia de Mohs): técnica em que as margens são examinadas durante o procedimento; é recomendada para tumores de alto risco, recidivados ou localizados em áreas anatômicas críticas [2].
    • Tratamentos tópicos, terapia fotodinâmica e métodos destrutivos (como curetagem, eletrocoagulação ou crioterapia): podem ser considerados em tumores de baixo risco, principalmente superficiais, conforme indicação [2]. A crioterapia e o laser destroem o tecido e não permitem análise ao microscópio do material [2].
    • Radioterapia: alternativa para quem não pode ou não deseja ser operado, especialmente pessoas mais idosas [2].
    • Casos avançados: tumores localmente avançados ou com metástase são discutidos por equipe multidisciplinar e podem receber medicamentos de uso sistêmico específicos [2].

    Carcinoma espinocelular

    • Cirurgia com avaliação das margens ou cirurgia micrográfica: é o tratamento de primeira escolha; obter margens livres é o ponto mais importante [4].
    • Métodos destrutivos: por consenso dos especialistas, curetagem com eletrocoagulação, crioterapia, terapia fotodinâmica e laser não devem ser usados como tratamento do carcinoma espinocelular invasivo primário [4].
    • Radioterapia: considerada quando a cirurgia não é possível ou não é aceita [4].
    • Casos com metástase ou localmente avançados: exigem decisão de equipe multidisciplinar e podem incluir cirurgia dos gânglios, radioterapia e imunoterapia [4].

    Limites das evidências

    Nem todas as recomendações têm o mesmo nível de evidência: algumas, como a contraindicação de métodos destrutivos no espinocelular invasivo, são consensos de especialistas, por falta de estudos comparativos [4]. Em todos os casos, tratar uma lesão sem diagnóstico, com cauterização, ácidos ou pomadas por conta própria, pode atrasar o tratamento adequado e eliminar o tecido necessário para a análise.

    Depois do tratamento: acompanhamento e novos tumores

    Ter um carcinoma de pele aumenta a chance de desenvolver outros ao longo da vida. Em uma metanálise citada pela diretriz europeia, o risco acumulado de um novo carcinoma basocelular em cinco anos, em pessoas que já tiveram um carcinoma basocelular, foi de 36%. Segundo a mesma diretriz, a maioria desses novos tumores surge nos três primeiros anos após o diagnóstico, embora o risco continue elevado depois disso [2]. Quem teve basocelular também tem risco maior de espinocelular e de melanoma [2].

    O acompanhamento é individualizado. Para o carcinoma basocelular de baixo risco, não há evidência de que consultas muito frequentes melhorem os resultados; ainda assim, a diretriz considera razoável oferecer a todos uma consulta de retorno para orientar sobre o diagnóstico, a proteção solar e a observação da própria pele, e recomenda acompanhamento prolongado para quem teve tumores de alto risco ou múltiplos [2]. No espinocelular, o maior risco de recidiva está nos dois primeiros anos, a frequência das consultas depende do risco de cada caso, e a orientação inclui observar a pele e as regiões dos gânglios [4]. Pessoas imunossuprimidas exigem atenção especial [4].

    Entre as consultas, vale procurar o dermatologista ao notar qualquer alteração na área tratada ou uma lesão nova com as características descritas neste artigo.

    Perguntas frequentes

    Carcinoma basocelular é grave?

    É um câncer, e por isso precisa de tratamento, mas na grande maioria dos casos tem comportamento local e raramente se espalha. O risco está no crescimento ao redor da lesão, que pode destruir tecidos quando o tratamento é adiado. Diagnosticado cedo, costuma ter tratamento eficaz.

    Carcinoma basocelular dá metástase?

    Muito raramente. A metástase do basocelular é considerada excepcional; o que preocupa é a invasão local, especialmente no rosto.

    Qual é mais perigoso: basocelular ou espinocelular?

    Em geral, o espinocelular, porque tem maior capacidade de crescer em profundidade e, em uma minoria dos casos, de atingir gânglios ou outros órgãos. Ainda assim, a maioria dos espinocelulares tem ótimo prognóstico quando tratada cedo e corretamente.

    Uma ferida no rosto que não cicatriza pode ser câncer de pele?

    Pode. Feridas que não fecham, que cicatrizam e reabrem ou que sangram com facilidade estão entre as formas mais comuns de apresentação dos carcinomas. Não é preciso esperar que ela complete um prazo para procurar avaliação se já houver sinais suspeitos.

    Toda ceratose actínica vira câncer?

    Não. A chance de uma ceratose isolada evoluir para carcinoma espinocelular é baixa, e algumas regridem sozinhas. Mas a ceratose indica dano solar importante e pele com maior risco, por isso deve ser avaliada e acompanhada pelo dermatologista.

    Pomadas podem tratar carcinoma de pele?

    Alguns carcinomas basocelulares superficiais de baixo risco podem ser tratados com medicamentos tópicos, sempre com indicação e acompanhamento médico, depois do diagnóstico. Para o espinocelular invasivo, o tratamento recomendado é cirúrgico ou, quando a cirurgia não é possível, a radioterapia. Usar pomadas por conta própria pode atrasar o tratamento correto.

    Depois de tratar um carcinoma, pode aparecer outro?

    Sim. Quem já teve um carcinoma de pele tem risco maior de desenvolver novos tumores, inclusive em outras áreas. Por isso, o acompanhamento e a observação da própria pele continuam importantes depois do tratamento, com frequência definida conforme o risco de cada pessoa.

    Referências

    1. Instituto Nacional de Câncer (INCA). Câncer de pele não melanoma — versão para profissionais de saúde. Atualizado em 7 jul. 2023. Disponível em: www.gov.br
    2. Peris K, Fargnoli MC, Kaufmann R, et al. European consensus-based interdisciplinary guideline for diagnosis and treatment of basal cell carcinoma—update 2023. Eur J Cancer. 2023;192:113254. DOI: 10.1016/j.ejca.2023.113254
    3. Stratigos AJ, Garbe C, Dessinioti C, et al. European consensus-based interdisciplinary guideline for invasive cutaneous squamous cell carcinoma. Part 1: Diagnostics and prevention—update 2023. Eur J Cancer. 2023;193:113251. DOI: 10.1016/j.ejca.2023.113251
    4. Stratigos AJ, Garbe C, Dessinioti C, et al. European consensus-based interdisciplinary guideline for invasive cutaneous squamous cell carcinoma. Part 2: Treatment—update 2023. Eur J Cancer. 2023;193:113252. DOI: 10.1016/j.ejca.2023.113252
    5. Werner RN, Sammain A, Erdmann R, Hartmann V, Stockfleth E, Nast A. The natural history of actinic keratosis: a systematic review. Br J Dermatol. 2013;169(3):502-518. DOI: 10.1111/bjd.12420

    Autoria, revisão médica e transparência

    Autoria e revisão médica: Dr. Rubens Pontello Junior — Dermatologista, CRM-PR 24.645 | RQE 2.050, diretor técnico do Instituto Pontello.
    Revisão médica: 19 de outubro de 2026
    Área de atuação: Dermatologia
    Publicado em: 19 de outubro de 2026
    Conflitos de interesse: O Dr. Rubens Pontello Junior declara não possuir conflitos de interesse relacionados a este artigo.
    Transparência: as afirmações clínicas estão sustentadas pelas referências científicas listadas acima. Nenhuma marca de produto é citada. As opções de tratamento descritas refletem diretrizes e não indicam quais procedimentos são realizados pelo Dr. Rubens. Este conteúdo tem caráter informativo, não substitui a consulta médica individualizada e não permite autodiagnóstico.

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  • Pinta suspeita: quando uma pinta merece avaliação e por que o ABCDE não basta

    Pinta suspeita: quando uma pinta merece avaliação e por que o ABCDE não basta

    Em poucas palavras

    A maioria das pintas é benigna e permanece estável por anos. Uma pinta merece avaliação dermatológica quando está mudando de tamanho, forma ou cor, é diferente das outras pintas da mesma pessoa, surge na vida adulta com alguma dessas características, ou passa a coçar, sangrar ou formar crosta sem motivo aparente. A regra ABCDE ajuda a reconhecer esses sinais, mas não é um teste de diagnóstico: há pintas benignas que preenchem os critérios e melanomas que não os seguem. O que define o diagnóstico é o exame feito pelo dermatologista e, quando necessário, a análise da lesão ao microscópio.

    O que é uma pinta

    Na linguagem médica, a pinta comum é chamada de nevo melanocítico. Ela é formada por um agrupamento de melanócitos, as células que produzem o pigmento da pele. Pintas surgem principalmente na infância e na adolescência [11]; podem ser planas ou elevadas e variam do marrom-claro ao marrom-escuro.

    Ter pintas é normal. Pessoas com muitas pintas, porém, têm risco maior de melanoma, e o risco cresce com o número de pintas comuns e com a presença de pintas atípicas, de aspecto irregular [7]. Mesmo assim, a maioria dos melanomas não nasce de uma pinta que já existia. Em uma metanálise de 38 estudos observacionais, a proporção de melanomas associados a uma pinta preexistente foi de 29,1%; nos demais casos analisados (70,9%), o melanoma surgiu sem pinta prévia identificada [6]. Esses percentuais refletem os estudos incluídos na análise e não representam o risco de uma pessoa específica. Por isso, observar o surgimento de lesões novas é tão importante quanto acompanhar as antigas.

    Pinta comum ou lesão suspeita: o que muda

    Nenhuma característica isolada separa com segurança uma pinta benigna de um melanoma. Ainda assim, alguns padrões costumam distinguir uma pinta comum de uma lesão que merece avaliação [1, 3]:

    Características frequentemente observadas em pintas benignas Características que merecem avaliação
    Formato Redonda ou oval, simétrica Assimétrica, com contorno irregular
    Bordas Bem definidas Borradas, recortadas ou mal definidas
    Cor Um tom uniforme de marrom Vários tons (marrom, preto, vermelho, azulado, áreas claras)
    Comportamento Estável ao longo dos anos Mudança de tamanho, forma, cor, relevo ou sintomas
    Comparação com as outras Parecida com as demais pintas da pessoa Diferente de todas as outras (“patinho feio”)
    Momento de surgimento Surgimento na infância ou na adolescência Pinta nova na vida adulta que muda ou é diferente das demais

    Observação: nenhuma característica isolada confirma ou exclui melanoma. A tabela reúne padrões frequentes; a conclusão depende do exame dermatológico.

    A regra ABCDE

    A regra ABCDE foi criada para ajudar pacientes e profissionais a reconhecer pintas que precisam de atenção. A letra E, de evolução, foi incorporada depois, quando se percebeu que a mudança ao longo do tempo é um dos sinais mais importantes [2].

    Infográfico da regra ABCDE comparando pinta comum e sinal de atenção: assimetria, borda, cor, diâmetro e evolução

    A — Assimetria

    Se a pinta fosse dividida ao meio, as duas metades não seriam iguais em forma, cor ou estrutura.

    B — Bordas

    O contorno é irregular, recortado ou borrado, sem limite nítido com a pele ao redor.

    C — Cor

    Há mais de um tom na mesma lesão: marrom-claro e escuro, preto, vermelho, azulado ou áreas mais claras.

    D — Diâmetro

    O diâmetro é maior que cerca de 6 mm, aproximadamente o tamanho da borracha na ponta de um lápis. Melanomas em fase inicial, porém, podem ser menores que isso [2, 3].

    E — Evolução

    A pinta muda de tamanho, formato, cor, relevo ou passa a causar sintomas, como coceira, sangramento ou crosta. Entre todos os critérios, a evolução é o sinal que mais pesa na decisão de procurar avaliação [1, 2].

    Por que o ABCDE não basta

    O ABCDE é uma ferramenta de alerta, não de diagnóstico. Ele tem limitações importantes:

    • pintas benignas podem apresentar um ou mais desses sinais sem ser câncer: na maior parte das vezes, alterações como essas na pele não são causadas por câncer [1];
    • alguns melanomas não seguem o padrão, como os nodulares, que costumam crescer como um nódulo simétrico, elevado e firme, e os pouco pigmentados, que podem ser rosados ou da cor da pele [3, 8];
    • melanomas iniciais podem ser pequenos e ainda regulares [2, 3];
    • a regra foi pensada para pintas pigmentadas e não ajuda a reconhecer outros tipos de câncer de pele, como os carcinomas, que costumam ser rosados, perolados ou descamativos.

    Por isso, o ABCDE deve ser usado junto com outros sinais, como a mudança ao longo do tempo e a comparação com as demais pintas, e nunca como forma de descartar uma lesão que preocupa.

    O sinal do patinho feio

    As pintas de uma mesma pessoa costumam se parecer entre si. O sinal do patinho feio chama atenção para a pinta que foge desse padrão: maior, mais escura, mais clara, de formato diferente ou com aspecto que destoa das demais [4]. Em um estudo com dermatologistas, considerar esse sinal ajudou a selecionar melhor as lesões que precisavam de investigação [5].

    Ilustração de costas com várias pintas parecidas e uma pinta diferente destacada, representando o sinal do patinho feio

    Na prática, comparar as pintas entre si costuma ser mais útil do que avaliar uma pinta isoladamente.

    Pintas novas na vida adulta

    A maior parte das pintas surge na infância e na adolescência [11]. Na vida adulta, novas pintas também podem aparecer, e isso, por si só, não significa câncer. A American Academy of Dermatology orienta que, em adultos, pintas novas e mudanças em pintas já existentes podem ser sinal de melanoma e merecem atenção [11]. O que mais pesa é a evolução da lesão (se cresce ou muda de forma, cor ou relevo) e o quanto ela difere das outras pintas da mesma pessoa. Como a maior parte dos melanomas surge sem pinta prévia [6], uma lesão nova que evolui ou destoa das demais deve ser avaliada, e essa avaliação é sempre individual, considerando o histórico e os fatores de risco de cada pessoa.

    Pintas que crescem, mudam, coçam ou sangram

    Mudança é o sinal que mais pesa. Merecem avaliação as pintas que:

    • aumentam de tamanho ou ficam mais elevadas;
    • mudam de formato ou de cor, inclusive quando ficam mais claras ou ganham áreas avermelhadas;
    • passam a coçar de forma persistente, sem causa aparente;
    • sangram, formam crosta ou ferida sem ter sido machucadas.

    A coceira tem muitas causas benignas e, na maior parte das vezes, alterações como essa não são causadas por câncer [1]. O sintoma ganha importância quando é persistente ou vem junto com alguma mudança de tamanho, forma ou cor [1, 11]. Uma pinta que sangra depois de um trauma evidente, como um arranhão ou o atrito com a roupa, também deve ser observada: se não cicatrizar ou continuar alterada, precisa ser examinada.

    Quando o melanoma não tem o aspecto clássico

    Nem todo melanoma é uma mancha escura e irregular. Alguns se apresentam de forma diferente [3, 8]:

    Melanoma nodular

    Surge como um nódulo elevado, firme e simétrico, que cresce em semanas ou poucos meses. Pode ser escuro, azulado ou avermelhado. Por crescer em profundidade de forma mais rápida e nem sempre ter bordas irregulares, costuma escapar do ABCDE [8].

    Melanoma pouco pigmentado

    Tem pouco ou nenhum pigmento e pode parecer uma lesão rosada, avermelhada ou da cor da pele, às vezes confundida com uma lesão inflamatória [3].

    Palmas, plantas e unhas

    O melanoma pode aparecer em áreas pouco expostas ao sol, como palmas das mãos, plantas dos pés e embaixo das unhas, em qualquer tom de pele [3]. Na unha, o sinal de atenção é uma faixa escura nova, que se alarga ou cuja pigmentação passa para a pele ao redor.

    Lesões benignas que podem ser confundidas com câncer

    Várias lesões comuns e benignas podem assustar pela cor ou pelo relevo. Entre elas:

    • Ceratose seborreica: lesão bem delimitada, marrom a preta, com aspecto “grudado” na pele e superfície aveludada ou áspera; é frequente e se torna mais comum com o avançar da idade [12].
    • Lentigo solar: mancha marrom e plana em áreas expostas ao sol, como rosto, mãos, pescoço e braços, mais comum com o avançar da idade [13].
    • Dermatofibroma: pequeno nódulo firme, mais comum nas pernas, que costuma afundar levemente no centro quando a pele ao redor é pressionada [14].
    • Angioma rubi: pequena lesão vermelha ou arroxeada, formada por vasos sanguíneos; é o tumor vascular benigno mais comum da pele e se torna mais frequente com a idade [15].

    A semelhança visual entre essas lesões e alguns cânceres de pele é justamente o motivo pelo qual a distinção deve ser feita em consulta, e não por comparação com fotos na internet.

    O que observar na própria pele

    Conhecer a própria pele facilita perceber mudanças. Algumas orientações práticas:

    • observe a pele periodicamente, com boa iluminação, usando um espelho de corpo inteiro e um espelho de mão; a frequência deve ser combinada com o dermatologista, de acordo com o seu risco;
    • inclua áreas pouco vistas: couro cabeludo, costas, nádegas, plantas dos pés, entre os dedos e embaixo das unhas;
    • peça ajuda a alguém para as regiões que você não consegue ver;
    • fotografias feitas por você, sempre com a mesma distância e luz, podem ajudar a documentar mudanças ao longo do tempo, mas não substituem o exame clínico nem a avaliação dermatoscópica, quando indicada;
    • anote pintas novas ou mudanças e leve essas informações à consulta.
    Mapa corporal de frente e costas com as áreas pouco vistas no autoexame da pele e passo a passo de como fazer

    O autoexame complementa, mas não substitui, a avaliação dermatológica. Aplicativos de celular que prometem avaliar o risco de uma pinta também não substituem a consulta: uma revisão sistemática concluiu que eles não têm precisão confiável e podem tanto deixar de identificar melanomas quanto gerar preocupação desnecessária [9].

    Quando procurar avaliação dermatológica

    Procure um dermatologista quando notar:

    • uma pinta nova na vida adulta que cresce, muda ou é diferente das demais;
    • uma pinta que muda de tamanho, forma, cor ou relevo;
    • uma pinta que coça de forma persistente, sangra ou forma crosta sem motivo aparente;
    • um nódulo novo, firme ou que cresce rapidamente, de qualquer cor;
    • uma faixa escura nova em uma unha;
    • qualquer lesão que preocupe, mesmo sem um desses sinais.

    Lesões que crescem rapidamente, sangram espontaneamente ou mudam de forma importante não devem esperar: justificam avaliação sem demora. Na consulta, o dermatologista examina a pele como um todo, compara as pintas entre si e pode usar a dermatoscopia, exame com aumento e iluminação especial que melhora a precisão na avaliação de lesões pigmentadas [10]. Quando há suspeita de câncer de pele, o dermatologista pode indicar uma biópsia para análise do tecido ao microscópio. A forma de obtenção da amostra depende da avaliação clínica. Nas lesões melanocíticas suspeitas, a investigação deve ser feita por métodos que permitam análise histopatológica adequada [3]. Para entender os tipos de câncer de pele e outros sinais de alerta, veja o artigo sobre câncer de pele.

    Por que não remover ou tratar uma pinta sem diagnóstico

    Tentar eliminar uma pinta suspeita com cauterização, laser, ácidos, pomadas ou produtos caseiros, sem avaliação prévia, pode trazer dois problemas. O primeiro é destruir o tecido que seria necessário para o exame ao microscópio, que é o que confirma ou descarta um melanoma [3]. O segundo é que a lesão pode voltar com aspecto alterado, o que dificulta avaliações futuras.

    Retirar uma pinta por motivo estético é possível, mas a decisão sobre a técnica deve ser tomada depois da avaliação dermatológica. Quando uma lesão é retirada, a análise do material permite confirmar sua natureza.

    Perguntas frequentes

    Toda pinta preta é perigosa?

    Não. A cor escura, sozinha, não indica câncer: muitas pintas benignas são marrom-escuras ou pretas. O que chama atenção é a combinação de sinais, como cores variadas na mesma pinta, mudança recente ou aspecto diferente das demais.

    Pinta que coça é sinal de câncer?

    Na maioria das vezes, não. Coceira isolada tem muitas causas benignas. Ela passa a ser relevante quando é persistente ou vem acompanhada de mudança de tamanho, forma, cor, sangramento ou crosta.

    Uma pinta pode virar câncer?

    Pode, mas é incomum. A maioria das pintas permanece benigna por toda a vida, e a maior parte dos melanomas surge em pele que não tinha pinta. Por isso, vale observar tanto as pintas antigas quanto o aparecimento de lesões novas.

    É normal surgirem pintas novas depois dos 30 anos?

    Algumas pintas novas podem surgir na vida adulta e ser benignas. Ainda assim, uma pinta nova nessa fase merece mais atenção, sobretudo se for diferente das outras ou continuar mudando.

    Posso tirar uma pinta só por estética?

    Sim, após avaliação dermatológica. Retirar ou destruir uma pinta sem diagnóstico pode eliminar o material necessário para descartar um melanoma.

    Aplicativos de celular conseguem dizer se a pinta é câncer?

    Não de forma confiável. Estudos mostram que esses aplicativos podem deixar de identificar melanomas e também gerar alarmes falsos. Eles não substituem a consulta.

    Com que frequência devo examinar minhas pintas?

    Observar a própria pele de tempos em tempos ajuda a perceber mudanças. A frequência das consultas de acompanhamento depende do risco de cada pessoa e deve ser combinada com o dermatologista.

    Referências

    1. Instituto Nacional de Câncer (INCA). Câncer de pele melanoma — versão para a população. Atualizado em 16 set. 2025. Disponível em: www.gov.br
    2. Abbasi NR, Shaw HM, Rigel DS, et al. Early diagnosis of cutaneous melanoma: revisiting the ABCD criteria. JAMA. 2004;292(22):2771-2776. DOI: 10.1001/jama.292.22.2771
    3. Garbe C, Amaral T, Peris K, et al. European consensus-based interdisciplinary guideline for melanoma. Part 1: Diagnostics — update 2024. Eur J Cancer. 2025;215:115152. DOI: 10.1016/j.ejca.2024.115152
    4. Grob JJ, Bonerandi JJ. The “ugly duckling” sign: identification of the common characteristics of nevi in an individual as a basis for melanoma screening. Arch Dermatol. 1998;134(1):103. DOI: 10.1001/archderm.134.1.103-a
    5. Gaudy-Marqueste C, Wazaefi Y, Bruneu Y, et al. Ugly duckling sign as a major factor of efficiency in melanoma detection. JAMA Dermatol. 2017;153(4):279. DOI: 10.1001/jamadermatol.2016.5500
    6. Pampena R, Kyrgidis A, Lallas A, Moscarella E, Argenziano G, Longo C. A meta-analysis of nevus-associated melanoma: prevalence and practical implications. J Am Acad Dermatol. 2017;77(5):938-945.e4. DOI: 10.1016/j.jaad.2017.06.149
    7. Gandini S, Sera F, Cattaruzza MS, et al. Meta-analysis of risk factors for cutaneous melanoma: I. Common and atypical naevi. Eur J Cancer. 2005;41(1):28-44. DOI: 10.1016/j.ejca.2004.10.015
    8. Chamberlain AJ, Fritschi L, Kelly JW. Nodular melanoma: patients’ perceptions of presenting features and implications for earlier detection. J Am Acad Dermatol. 2003;48(5):694-701. DOI: 10.1067/mjd.2003.216
    9. Freeman K, Dinnes J, Chuchu N, et al. Algorithm based smartphone apps to assess risk of skin cancer in adults: systematic review of diagnostic accuracy studies. BMJ. 2020;368:m127. DOI: 10.1136/bmj.m127
    10. Dinnes J, Deeks JJ, Chuchu N, et al. Dermoscopy, with and without visual inspection, for diagnosing melanoma in adults. Cochrane Database Syst Rev. 2018;(12):CD011902. DOI: 10.1002/14651858.CD011902.pub2
    11. American Academy of Dermatology (AAD). Moles: Overview. Disponível em: aad.org. Acesso em: 19 out. 2026.
    12. Lubis SND, Putra IB. An update on the diagnosis and treatment of seborrheic keratosis. Front Med (Lausanne). 2026;13:1764657. DOI: 10.3389/fmed.2026.1764657
    13. Mardani G, Nasiri MJ, Namazi N, Farshchian M, Abdollahimajd F. Treatment of solar lentigines: a systematic review of clinical trials. J Cosmet Dermatol. 2025;24(4):e70133. DOI: 10.1111/jocd.70133
    14. Wan L, Park A, Almatroud L, Khachemoune A. Dermatofibroma: reappraisal and updated review. Clin Cosmet Investig Dermatol. 2025;18:1873-1887. DOI: 10.2147/CCID.S526191
    15. Pastor-Tomás N, Bañuls J, Nagore E. Clinical relevance of cherry angiomas. Actas Dermosifiliogr. 2023;114(3):T240-T246. DOI: 10.1016/j.ad.2022.10.040

    Autoria, revisão médica e transparência

    Autoria e revisão médica: Dr. Rubens Pontello Junior — Dermatologista, CRM-PR 24.645 | RQE 2.050, diretor técnico do Instituto Pontello.
    Revisão médica: 19 de outubro de 2026
    Área de atuação: Dermatologia
    Publicado em: 19 de outubro de 2026
    Conflitos de interesse: O Dr. Rubens Pontello Junior declara não possuir conflitos de interesse relacionados a este artigo.
    Transparência: as afirmações clínicas estão sustentadas pelas referências científicas listadas acima. Nenhuma marca de produto é citada. Este conteúdo tem caráter informativo, não substitui a consulta médica individualizada e não permite autodiagnóstico.

    Quer uma avaliação personalizada? Agende uma consulta com o Dr. Rubens Pontello Junior, dermatologista em Londrina.

  • Câncer de pele: tipos, sinais de alerta e quando procurar o dermatologista

    Câncer de pele: tipos, sinais de alerta e quando procurar o dermatologista

    Em poucas palavras

    Câncer de pele não é uma doença única. Os carcinomas basocelular e espinocelular são os tumores mais frequentes do Brasil e, na grande maioria dos casos, permanecem restritos ao local onde surgiram. O melanoma é bem menos comum, mas é o mais grave, porque tem maior capacidade de se espalhar para outros órgãos. Nem todo câncer de pele é uma pinta escura: uma lesão rosada ou perolada, uma mancha áspera que descama ou uma ferida que não cicatriza também merecem atenção. Lesões novas, que mudam ou que persistem por mais de 15 dias devem ser avaliadas por um dermatologista. Esse prazo não significa que seja necessário esperar 15 dias para procurar atendimento. Lesões que apresentam sinais suspeitos, como crescimento rápido, alterações importantes ou sangramento espontâneo, podem justificar avaliação antes desse período. Para pessoas sem sintomas, não há recomendação de exame periódico igual para todos: a frequência do acompanhamento depende do risco de cada um.

    O que é o câncer de pele

    Câncer de pele é o crescimento descontrolado de células da pele que sofreram alterações no seu material genético. A principal causa conhecida é a radiação ultravioleta, do sol ou de fontes artificiais, seja acumulada ao longo da vida, seja recebida em queimaduras intensas [1, 2].

    O tipo de célula de origem define a doença. Quando o tumor nasce dos queratinócitos, as células que formam a maior parte da epiderme, fala-se em carcinoma, ou câncer de pele não melanoma. Quando nasce dos melanócitos, as células que produzem pigmento, fala-se em melanoma. A diferença não é apenas técnica: frequência, aparência, velocidade de crescimento, risco de disseminação e tratamento são distintos.

    Quantos casos o Brasil registra

    Para cada ano do triênio 2026–2028, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 263.280 novos casos de câncer de pele não melanoma e 9.360 de melanoma no Brasil [3]. O não melanoma é o câncer mais frequente do país. O melanoma corresponde a uma parcela pequena dos casos, mas é o tipo com maior potencial de disseminação; em 2024, foram registrados 2.031 óbitos por melanoma no país [1].

    Números do câncer de pele no Brasil segundo o INCA: 263.280 casos de não melanoma e 9.360 de melanoma por ano

    Melanoma e carcinomas: por que não são a mesma doença

    Esquema da epiderme mostrando queratinócitos, células basais e melanócitos, onde começam os tipos de câncer de pele
    Carcinoma basocelular Carcinoma espinocelular Melanoma
    Célula de origem Células da camada basal da epiderme Queratinócitos da epiderme Melanócitos
    Frequência Cerca de 80% dos casos de não melanoma [2] Cerca de 20% dos casos de não melanoma [2] Cerca de 9 mil casos por ano no Brasil [3]
    Aparência típica Nódulo ou ferida de bordas rosadas, translúcidas ou peroladas Lesão avermelhada, áspera, que descama e pode sangrar Pinta nova ou que muda; geralmente escura, nem sempre
    Comportamento Crescimento lento; raramente se espalha, mas pode invadir tecidos vizinhos Pode crescer mais rápido; em uma minoria dos casos, atinge gânglios Maior potencial de disseminação; a espessura no diagnóstico é o principal fator prognóstico
    Onde aparece Áreas expostas ao sol, sobretudo o rosto Áreas expostas: rosto, lábio inferior, orelhas, couro cabeludo, dorso das mãos Qualquer área, inclusive pouco expostas ao sol, como palmas, plantas e unhas

    Carcinoma basocelular

    É o câncer de pele mais comum. Costuma surgir como um nódulo brilhante, rosado ou perolado, às vezes com pequenos vasos visíveis na superfície, ou como uma ferida que se forma, parece melhorar e volta a abrir [2]. Raramente se espalha para outros órgãos, mas, sem tratamento, pode invadir e destruir estruturas vizinhas, o que é especialmente delicado no rosto, perto de olhos, nariz e orelhas [4].

    Carcinoma espinocelular

    Geralmente aparece como uma lesão avermelhada, áspera ou endurecida, que descama, forma crosta e sangra com facilidade [2]. Pode se desenvolver sobre uma ceratose actínica, lesão áspera causada pelo sol acumulado, comum no rosto, no couro cabeludo calvo e no dorso das mãos [5]. Em comparação com o basocelular, tem maior capacidade de crescer em profundidade e, em uma minoria dos casos, de atingir gânglios. O risco é maior em lábios e orelhas e em pessoas com imunidade reduzida, como transplantados de órgãos [5].

    Melanoma

    Pode surgir em pele aparentemente normal ou a partir de uma pinta que já existia e passa a mudar de tamanho, cor ou forma [1]. Na maioria das vezes é escuro, mas existem melanomas avermelhados ou da cor da pele [8]. O principal fator prognóstico é a espessura do tumor no momento do diagnóstico, medida no exame anatomopatológico [6]. Por isso, reconhecer cedo faz diferença.

    Quem tem mais risco

    Qualquer pessoa pode ter câncer de pele, inclusive quem tem pele morena ou negra. Alguns fatores, porém, aumentam o risco [1, 2, 4, 5]:

    • pele clara, que se queima com facilidade e pouco bronzeia; olhos claros; cabelos ruivos ou loiros;
    • exposição solar intensa ao longo da vida, especialmente queimaduras na infância e na adolescência;
    • trabalho ou lazer ao ar livre por longos períodos;
    • uso de bronzeamento artificial;
    • histórico pessoal ou familiar de câncer de pele;
    • grande número de pintas ou pintas atípicas (fator ligado sobretudo ao melanoma);
    • imunossupressão, como em transplantados de órgãos.

    Esses fatores indicam quem se beneficia de atenção maior. Ninguém está isento apenas por não tê-los.

    Sinais que merecem avaliação

    Não existe um sinal único que confirme ou descarte câncer de pele. O que orienta a decisão de procurar avaliação é o conjunto: a lesão é nova, está mudando, é diferente das demais ou não desaparece.

    Pintas que mudam

    A regra ABCDE resume características que tornam uma pinta mais suspeita: assimetria, bordas irregulares, cores variadas, diâmetro acima de cerca de 6 mm e evolução, isto é, mudança de tamanho, forma, cor ou sintomas [1, 7]. É um alerta, não um diagnóstico. A maioria das pintas com algum desses critérios é benigna [1], e alguns melanomas não seguem o padrão: os nodulares crescem como um nódulo simétrico e elevado, e os pouco pigmentados podem ser rosados [8]. Por isso, o sinal mais importante é a mudança. Também chama atenção a pinta que destoa das demais da mesma pessoa, o chamado sinal do “patinho feio” [9].

    Lesões que não são escuras

    Boa parte dos cânceres de pele não tem cor escura. Merecem avaliação [2]:

    • um nódulo brilhante, rosado ou perolado, que cresce aos poucos;
    • uma mancha avermelhada e áspera que descama e não melhora com hidratante;
    • uma “casquinha” que cai e volta a se formar no mesmo lugar;
    • uma lesão endurecida, elevada, que sangra com pequenos atritos.

    Feridas que não cicatrizam

    Uma ferida sem causa evidente, que sangra, forma crosta e não fecha, deve ser examinada. O INCA orienta que lesões que persistem por mais de 15 dias sejam avaliadas por um especialista [2]. O sinal vale especialmente para rosto, lábios, orelhas, couro cabeludo e dorso das mãos.

    Palmas, plantas e unhas

    O melanoma também pode aparecer em áreas pouco expostas ao sol, como palmas das mãos, plantas dos pés e embaixo das unhas, em qualquer tom de pele [8]. Uma faixa escura nova na unha, sobretudo se alarga ou se a pigmentação passa para a pele ao redor, deve ser avaliada.

    Câncer de pele no rosto

    O rosto concentra boa parte dos carcinomas, porque recebe sol todos os dias por décadas. Nariz, têmporas, testa, lábio inferior e orelhas são regiões frequentes [4, 5]. Ali, o diagnóstico precoce importa não só para a saúde, mas também para a preservação estética e funcional: lesões menores costumam exigir tratamentos menores. Uma lesão que “parece uma espinha que não sara” ou uma descamação persistente no lábio são exemplos que merecem consulta.

    Investigação de lesões suspeitas é diferente de rastreamento

    São duas situações distintas, e a diferença muda a conduta.

    Investigação de uma lesão suspeita. Quando há uma pinta que mudou, uma lesão nova diferente das demais ou uma ferida que não cicatriza, a avaliação dermatológica é indicada. Esse é o diagnóstico precoce, recomendado pelo INCA para todas as pessoas [1, 2].

    Rastreamento de pessoas sem sintomas. É o exame periódico da pele inteira em quem não tem queixa nem fator de risco relevante. Para pessoas sem sintomas, ainda não existem evidências suficientes para determinar se os benefícios do rastreamento sistemático por exame visual da pele superam seus possíveis danos. Isso não se aplica à investigação de lesões suspeitas, e pessoas com fatores de risco podem necessitar de acompanhamento individualizado. Com base nesse cenário, o INCA não recomenda o rastreamento populacional [1, 2], e a Força-Tarefa de Serviços Preventivos dos Estados Unidos (USPSTF) classificou a evidência como insuficiente em 2023 [10].

    Isso não significa que examinar a pele seja inútil. Pessoas com histórico pessoal ou familiar de câncer de pele, muitas pintas, pintas atípicas, pele muito clara com grande exposição solar ou imunossupressão podem precisar de acompanhamento regular, definido pelo dermatologista [4, 5, 8].

    Como é feito o diagnóstico

    O diagnóstico começa pela conversa e pelo exame clínico da pele. A dermatoscopia, exame feito com um aparelho de aumento e iluminação especial, permite observar estruturas invisíveis a olho nu; uma revisão Cochrane mostrou que, associada ao exame visual, ela aumenta a precisão no diagnóstico de melanoma [11]. A confirmação vem da biópsia e da análise ao microscópio (exame anatomopatológico), que define o tipo de tumor e, no melanoma, a espessura que orienta os próximos passos [6, 8].

    Câncer de pele tem cura?

    Quando o diagnóstico é precoce, as chances de cura são altas na maioria dos casos. Carcinomas basocelulares e espinocelulares pequenos costumam ser tratados com procedimentos locais [4, 12]. No melanoma, quanto mais fino o tumor no diagnóstico, melhor o prognóstico [6]. O tratamento é sempre individual e depende do tipo, do tamanho, da localização e do estágio.

    Prevenção: o que reduz o risco e o que não garante proteção

    A fotoproteção reduz o risco, mas nenhuma medida isolada elimina a possibilidade de câncer de pele.

    No principal ensaio clínico sobre o tema, realizado na Austrália, o uso diário de protetor solar reduziu o número de carcinomas espinocelulares, sem diferença significativa na proporção de pessoas que desenvolveram o primeiro carcinoma basocelular ou espinocelular durante o estudo [13]. No acompanhamento de longo prazo do mesmo grupo, houve menos melanomas entre os usuários regulares: a redução foi limítrofe do ponto de vista estatístico para o total e mais consistente para os melanomas invasivos [14].

    Na prática, a proteção combina várias medidas [1, 15]:

    • evitar o sol intenso entre 10h e 16h e procurar sombra;
    • usar roupas, chapéu de abas largas e óculos com proteção UV;
    • aplicar protetor solar de amplo espectro em quantidade adequada e reaplicar ao longo do dia, inclusive nos lábios;
    • não usar bronzeamento artificial, proibido no Brasil para fins estéticos desde 2009 [16].

    O Consenso Brasileiro de Fotoproteção faz um alerta: quem confia apenas no protetor tende a ficar mais tempo ao sol, o que reduz o benefício [15].

    Medidas de prevenção do câncer de pele: sombra, roupas e chapéu, protetor solar e não fazer bronzeamento artificial

    Quando procurar o dermatologista

    Procure avaliação quando notar:

    • uma pinta nova na vida adulta, ou diferente das demais;
    • uma pinta que muda de tamanho, cor, forma ou relevo, coça ou sangra;
    • uma lesão rosada, perolada ou avermelhada que cresce ou descama;
    • uma ferida sem causa clara que não cicatriza em mais de 15 dias;
    • uma faixa escura nova em uma unha;
    • qualquer lesão que preocupe, mesmo sem um desses sinais.

    Quem tem fatores de risco importantes deve combinar com o dermatologista uma rotina de acompanhamento adequada ao seu caso.

    Perguntas frequentes

    Câncer de pele dói?

    Na maioria das vezes, não, especialmente no início. A ausência de dor não é sinal de benignidade. Coceira, sangramento ou sensibilidade em uma lesão que muda merecem avaliação.

    Pele morena ou negra tem câncer de pele?

    Sim. O risco é menor do que em peles claras, mas existe. O melanoma também pode surgir em áreas pouco expostas ao sol, como palmas, plantas e unhas, que merecem atenção em qualquer tom de pele. Em estudos norte-americanos, pessoas não brancas tiveram o melanoma diagnosticado com mais frequência em estágio avançado [17].

    Toda pinta que coça é câncer?

    Não. Coceira tem muitas causas benignas. Se vier acompanhada de mudança de tamanho, cor, forma ou de sangramento, a pinta deve ser examinada.

    Uma ferida que não cicatriza pode ser câncer de pele?

    Pode. Feridas sem causa clara que sangram, formam crosta e não fecham por mais de 15 dias devem ser avaliadas por um especialista, conforme orienta o INCA.

    Usar protetor solar todos os dias elimina o risco?

    Não. O protetor reduz o risco, e nos estudos o efeito mais consistente foi sobre o carcinoma espinocelular. Ele funciona melhor associado a sombra, roupas, chapéu e horários adequados. Nenhuma medida isolada garante proteção total.

    Preciso fazer um exame de pele todo ano?

    Depende do seu risco. Não há recomendação de rastreamento igual para toda a população sem sintomas. Quem tem histórico de câncer de pele, muitas pintas ou outros fatores de risco pode precisar de acompanhamento regular, definido em consulta. Lesões novas ou que mudam devem ser avaliadas a qualquer momento.

    Referências

    1. Instituto Nacional de Câncer (INCA). Câncer de pele melanoma — versão para a população. Atualizado em 16 set. 2025. gov.br/inca
    2. Instituto Nacional de Câncer (INCA). Câncer de pele não melanoma — versão para profissionais de saúde. Atualizado em 7 jul. 2023. gov.br/inca
    3. Martins LFL, Chaves GV, Oliveira JFP, et al. Perfil epidemiológico da incidência de câncer no Brasil e regiões: estimativas para o triênio 2026–2028. Rev Bras Cancerol. 2026;72(2). DOI: 10.32635/2176-9745.RBC.2026v72n2.5587
    4. Peris K, Fargnoli MC, Kaufmann R, et al. European consensus-based interdisciplinary guideline for diagnosis and treatment of basal cell carcinoma — update 2023. Eur J Cancer. 2023;192:113254. DOI: 10.1016/j.ejca.2023.113254
    5. Stratigos AJ, Garbe C, Dessinioti C, et al. European consensus-based interdisciplinary guideline for invasive cutaneous squamous cell carcinoma. Part 1: Diagnostics and prevention — update 2023. Eur J Cancer. 2023;193:113251. DOI: 10.1016/j.ejca.2023.113251
    6. Gershenwald JE, Scolyer RA, Hess KR, et al. Melanoma staging: evidence-based changes in the American Joint Committee on Cancer eighth edition cancer staging manual. CA Cancer J Clin. 2017;67(6):472-492. DOI: 10.3322/caac.21409
    7. Abbasi NR, Shaw HM, Rigel DS, et al. Early diagnosis of cutaneous melanoma: revisiting the ABCD criteria. JAMA. 2004;292(22):2771-2776. DOI: 10.1001/jama.292.22.2771
    8. Garbe C, Amaral T, Peris K, et al. European consensus-based interdisciplinary guideline for melanoma. Part 1: Diagnostics — update 2024. Eur J Cancer. 2025;215:115152. DOI: 10.1016/j.ejca.2024.115152
    9. Grob JJ, Bonerandi JJ. The “ugly duckling” sign: identification of the common characteristics of nevi in an individual as a basis for melanoma screening. Arch Dermatol. 1998;134(1):103. DOI: 10.1001/archderm.134.1.103-a
    10. US Preventive Services Task Force. Screening for skin cancer: US Preventive Services Task Force recommendation statement. JAMA. 2023. DOI: 10.1001/jama.2023.4342
    11. Dinnes J, Deeks JJ, Chuchu N, et al. Dermoscopy, with and without visual inspection, for diagnosing melanoma in adults. Cochrane Database Syst Rev. 2018;(12):CD011902. DOI: 10.1002/14651858.CD011902.pub2
    12. Stratigos AJ, Garbe C, Dessinioti C, et al. European consensus-based interdisciplinary guideline for invasive cutaneous squamous cell carcinoma. Part 2: Treatment — update 2023. Eur J Cancer. 2023;193:113252. DOI: 10.1016/j.ejca.2023.113252
    13. Green A, Williams G, Neale R, et al. Daily sunscreen application and betacarotene supplementation in prevention of basal-cell and squamous-cell carcinomas of the skin: a randomised controlled trial. Lancet. 1999;354(9180):723-729. DOI: 10.1016/S0140-6736(98)12168-2
    14. Green AC, Williams GM, Logan V, Strutton GM. Reduced melanoma after regular sunscreen use: randomized trial follow-up. J Clin Oncol. 2011;29(3):257-263. DOI: 10.1200/JCO.2010.28.7078
    15. Schalka S, Steiner D, Ravelli FN, et al. Brazilian Consensus on Photoprotection. An Bras Dermatol. 2014;89(6 Suppl 1):1-76. DOI: 10.1590/abd1806-4841.20143971
    16. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Resolução RDC nº 56, de 9 de novembro de 2009. Proíbe em todo território nacional o uso dos equipamentos para bronzeamento artificial, com finalidade estética. Biblioteca Virtual em Saúde
    17. Cormier JN, Xing Y, Ding M, et al. Ethnic differences among patients with cutaneous melanoma. Arch Intern Med. 2006;166(17):1907-1914. DOI: 10.1001/archinte.166.17.1907

    Autoria, revisão médica e transparência

    Autoria e revisão médica: Dr. Rubens Pontello Junior — Dermatologista, CRM-PR 24.645 | RQE 2.050, diretor técnico do Instituto Pontello.
    Revisão médica: 18 de outubro de 2026
    Área de atuação: Dermatologia
    Publicado em: 18 de outubro de 2026
    Conflitos de interesse: O Dr. Rubens Pontello Junior declara não possuir conflitos de interesse relacionados a este artigo.
    Transparência: as afirmações clínicas estão sustentadas pelas referências científicas listadas acima. Nenhuma marca de produto é citada. Este conteúdo tem caráter informativo, não substitui a consulta médica individualizada e não permite autodiagnóstico.

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