Acne: causas, tipos de lesão e o papel dos lasers no tratamento das cicatrizes
Acne vulgar é uma doença da unidade pilossebácea — o conjunto formado pelo folículo piloso e pela glândula sebácea. Ela envolve, de forma combinada, aumento da produção de sebo, alteração na descamação do canal folicular (hiperqueratinização), colonização pela bactéria Cutibacterium acnes e um processo inflamatório que pode variar de discreto a intenso.
Por isso, a acne não tem uma única causa nem um único tratamento. Fatores hormonais, genéticos, uso de determinados cosméticos ou medicamentos, atrito mecânico e até hábitos de manipulação das lesões podem influenciar o quadro. Duas pessoas com “espinhas” podem estar diante de graus e mecanismos bastante diferentes.
Essa variação é o motivo pelo qual o tratamento deve ser definido a partir de uma avaliação individual — o que inclui reconhecer se a fase é de acne ativa (lesões inflamatórias em curso) ou de sequela (cicatrizes e manchas que permanecem depois que a inflamação já passou), já que as abordagens indicadas para cada momento são diferentes.
Resposta rápida: a acne é uma doença inflamatória da pele com causas múltiplas (produção de sebo, obstrução folicular, bactérias e inflamação), tratada principalmente com medicações tópicas e/ou orais conforme a gravidade. Já as cicatrizes de acne — quando presentes — podem ser avaliadas para tecnologias a laser, como laser de CO2, laser picossegundo/nanossegundo ou outros recursos, sempre depois que a fase inflamatória está controlada.
O que causa a acne?
A acne resulta da combinação de pelo menos quatro mecanismos: aumento da produção de sebo pelas glândulas sebáceas (frequentemente estimulado por hormônios andrógenos), obstrução do canal folicular por queratinócitos descamados de forma anômala, proliferação da bactéria C. acnes dentro do folículo obstruído e resposta inflamatória do organismo a esse processo. Fatores adicionais — como estresse, alguns medicamentos, oclusão por cosméticos comedogênicos e influências genéticas — podem agravar ou perpetuar o quadro.
Quais são os principais tipos de lesão da acne?
As lesões podem ser não inflamatórias (comedões abertos e fechados, popularmente chamados de “cravos”) ou inflamatórias (pápulas, pústulas e, nos casos mais intensos, nódulos e cistos). Quanto mais profunda e intensa é a inflamação, maior a chance de deixar sequelas — cicatrizes atróficas (deprimidas), cicatrizes hipertróficas ou manchas residuais (eritema pós-inflamatório ou hiperpigmentação pós-inflamatória).
Como é feito o tratamento da acne ativa?
A diretriz mais recente da Academia Americana de Dermatologia para o tratamento da acne vulgar reúne evidências sobre as principais opções terapêuticas, que incluem retinoides tópicos, peróxido de benzoíla, antibióticos tópicos e orais, terapia hormonal (em pacientes selecionadas) e isotretinoína oral para os casos mais graves ou resistentes1. A escolha entre essas opções depende do tipo de lesão predominante, da gravidade, do histórico do paciente e da resposta a tratamentos anteriores.
Tecnologias a laser também podem ser consideradas como recurso complementar em determinados perfis de acne ativa — por exemplo, em modos de emissão térmica que atuam sobre a glândula sebácea — mas isso não substitui o tratamento clínico de base quando ele está indicado, e depende de avaliação dermatológica individual.
Toda cicatriz de acne é igual?
Não. As cicatrizes atróficas — as mais comuns — podem ser subdivididas em diferentes padrões (por exemplo, em “picote de gelo”, “vagão” ou “boxcar”, e onduladas ou “rolling”), cada um com profundidade e formato diferentes. Já o eritema pós-inflamatório (as marcas avermelhadas que ficam depois que a espinha já secou) tem origem vascular, e não estrutural — ou seja, não é propriamente uma cicatriz, e costuma se comportar de forma diferente ao longo do tempo e diante dos tratamentos.
Essa distinção importa porque cada padrão de sequela responde de forma diferente às tecnologias disponíveis — não existe um único recurso que trate igualmente bem todos os tipos.
Quais tecnologias a laser podem ser consideradas para cicatrizes de acne?
Depois que a fase inflamatória da acne está controlada, algumas tecnologias a laser têm evidência científica no tratamento de cicatrizes atróficas. Entre elas, o Coolaser — um laser de CO2 fracionado — está entre os recursos mais estudados para esse fim, com meta-análises mostrando melhora do aspecto das cicatrizes atróficas em parte relevante dos pacientes tratados2,3.
Sistemas a laser com múltiplos comprimentos de onda e regimes de pulso — como o TORO, que combina modos em picossegundos, nanossegundos e emissão térmica — também têm sido estudados especificamente para cicatrizes atróficas de acne, com revisões sistemáticas indicando resultados favoráveis e bom perfil de segurança4. Já tecnologias voltadas à uniformidade da pele e à textura, como o Fotona StarWalker, podem ser um recurso adicional quando há também poros dilatados ou manchas residuais associadas ao quadro.
A tabela a seguir resume, de forma geral, essas três tecnologias — sem substituir a avaliação individual, que é sempre o que determina qual (ou quais) recurso é adequado para cada caso.
| Tecnologia | Princípio | Uso mais estudado |
|---|---|---|
| Coolaser (laser de CO2) | Laser fracionado ablativo | Cicatrizes atróficas de acne, textura e poros |
| TORO | Múltiplos comprimentos de onda (picossegundo, nanossegundo e modo térmico) | Cicatrizes atróficas de acne e acne ativa (modo térmico), manchas |
| Fotona StarWalker | Laser Nd:YAG Q-switched multimodal | Manchas, textura, poros dilatados |
E as marcas vermelhas que ficam depois da espinha?
O eritema pós-inflamatório — aquelas marcas avermelhadas que demoram a sumir depois que a lesão de acne já cicatrizou — tem origem em vasos superficiais dilatados, e não em uma alteração estrutural da pele. Por isso, tecnologias com atuação sobre o componente vascular, como o RedTouch, podem ser um dos recursos considerados nesse contexto específico — sempre depois de confirmado que se trata de eritema, e não de uma cicatriz atrófica, já que os dois exigem abordagens diferentes.
Conheça também as demais opções de tratamento avaliadas caso a caso pelo Dr. Rubens.
Perguntas frequentes sobre acne
Espremer a espinha ajuda a resolver mais rápido?
Não. Manipular as lesões de acne aumenta o risco de piorar a inflamação, espalhar a infecção para tecidos vizinhos e deixar cicatrizes ou manchas que poderiam ser evitadas.
Colágeno em pó ajuda no tratamento da acne?
Não existe evidência de que a suplementação de colágeno em pó trate ou previna a acne. A acne é uma condição inflamatória do folículo pilossebáceo, e sua origem não está relacionada à quantidade de colágeno ingerida.
Dieta influencia a acne?
Alguns estudos sugerem associação entre alimentos de alto índice glicêmico ou laticínios e piora da acne em determinados indivíduos, mas a resposta varia de pessoa para pessoa. A dieta pode ser discutida como parte do plano, mas não substitui o tratamento clínico quando ele é indicado.
Protetor solar piora a acne?
Não deveria. Fórmulas descritas como “não comedogênicas” ou “oil-free” são desenvolvidas para reduzir esse risco. Interromper o uso de protetor solar por medo de piorar a acne pode expor a pele a outros problemas, incluindo o agravamento de manchas residuais.
Depois de iniciar o tratamento, a acne piora antes de melhorar?
Em alguns tratamentos tópicos (como retinoides), é possível haver um período inicial de irritação ou de “purga”, com aparecimento de lesões que já estavam em formação. Isso deve ser discutido com o dermatologista responsável, que pode ajustar a forma de uso.
Quando procurar um dermatologista para tratar acne?
Idealmente, antes que as lesões inflamatórias se tornem frequentes ou intensas — quanto mais cedo o tratamento adequado é iniciado, menor a chance de cicatrizes e manchas residuais permanentes.
Principais referências científicas
- Reynolds RV, Yeung H, Cheng CE, et al. Guidelines of care for the management of acne vulgaris. Journal of the American Academy of Dermatology. 2024;90(5):1006.e1-1006.e30. doi:10.1016/j.jaad.2023.12.017.
- Zhang DD, Zhao WY, Fang QQ, et al. The efficacy of fractional CO2 laser in acne scar treatment: a meta-analysis. Dermatologic Therapy. 2021;34(1):e14539. doi:10.1111/dth.14539.
- Liu F, Zhou Q, Tao M, Shu L, Cao Y. Efficacy and safety of CO2 fractional laser versus Er:YAG fractional laser in the treatment of atrophic acne scar: a meta-analysis and systematic review. Journal of Cosmetic Dermatology. 2024;23(9):2768-2778. doi:10.1111/jocd.16348.
- Li J, Duan F, Kuang J. Fractional picosecond laser for atrophic acne scars: a meta-analysis. Journal of Cosmetic Dermatology. 2023;22(8):2205-2217. doi:10.1111/jocd.15862.
Este conteúdo tem finalidade exclusivamente educativa e não substitui uma consulta médica. Cada paciente apresenta características clínicas próprias e deve ser avaliado individualmente por um dermatologista.
Revisão médica: Dr. Rubens Pontello Junior — dermatologista (CRM-PR 24645 | RQE 2050), Instituto Pontello (Londrina/PR).